Os mais velhos certamente se lembrarão. Os não tão velhos também. E até mesmo os mais jovens e imberbes talvez não tenham passado incólumes à influência do elegante, esguio e atrapalhado felino. Se existe um personagem entre tantos famosos na história cinematográfica e televisiva, este é, certamente, a Pantera Cor-de-Rosa, a Pink Panther produzida inicialmente por Blake Edwards e depois pelos estúdios DePatie-Freleng.
Tudo começou meio que por acaso, não o personagem em si, mas o estrondoso sucesso mundial; ninguém esperava ou sequer supunha que a rápida aparição de um personagem em um filme de grande sucesso ganhasse a cena, a atenção de milhões de espectadores e se tornasse um fenômeno de público e crítica.
Em 1963, Edwards exibiu o personagem no filme The Pink Panther, estrelado pelo genial Peter Sellers, David Niven, Claudia Cardinale, entre outros. A trama continha um inspetor atrapalhado, Jacques Clouseau (Sellers), responsável por solucionar uma sequência de furtos, a culminar na mais valiosa pedra do mundo: o diamante cor-de-rosa, subtraído da princesa Dala (Cardinale) pelo sofisticado playboy Sir Charles Lytton (codinome “O Fantasma”, interpretado por Niven). O felino apenas introduzia o filme, em parcos minutos durante a abertura e créditos, a fim de dar um tom elegante, gracioso e refinado. Entretanto, o que era um detalhe ganhou o apelo popular ao encantar e fascinar, e tornou-se mister prolongar a sua vida incidental.
Da década de 1960 até os anos 1980, foram realizados mais de 120 desenhos de aproximadamente 6 minutos de duração. O sucesso foi imediato, conquistando um séquito enorme de fãs em todo o mundo. A música-tema, criada pelo famoso maestro Henry Mancini, acrescentou ainda mais sucesso, requinte e humor ao gingar matreiro e vistoso da Pantera (nitidamente britânico e sofisticado, com a longa piteira acesa entre as mandíbulas). Já em seu início, em 1964, o episódio piloto, The Pink Phink (em português: A pantera pinta o sete), tornou-se o primeiro desenho de um estúdio estreante a ganhar o Oscar logo em sua primeira produção.
A Pantera Cor-de-Rosa tem os elementos da era de ouro dos desenhos: nada de lacração, de politicamente correto, de apologia ideológica e política, mesmo fazendo, aqui e ali, críticas à sociedade moderna. O viés é tão somente divertir, produzir gargalhadas e conquistar os corações de adultos e crianças com sua esperteza pontuada por boas doses de confusão e situações inusitadas. De forma simples, às vezes ingênua, ela acaba quase sempre por escapar dos perigos iminentes, provocados em sua maioria pelos humanos, em especial o baixinho narigudo e ranzinza que dá vida a muitos tipos diferentes (encanador, inspetor, pintor, turista, etc.). Nem sempre funcionava, e em alguns finais ela se deu mal.
A Pantera Cor-de-Rosa é um dos personagens mais emblemáticos da história. Conquistou gerações e ainda pode ser vista em canais a cabo, streaming e, para os saudosistas, em dvds. Um bon-vivant, calmo, relaxado, astuto e silencioso (em 1993, ouviu-se, pela primeira vez, a sua voz masculina, o que deixou os fãs desapontados, habituados com o seu mutismo e o expressar-se por gestos e mímicas), com o seu jeito despojado e curioso, levemente indiscreto, produziu situações hilárias e desconcertantes.
Se você, como eu, viu a saga de um dos gatos mais amados do planeta (possivelmente comparável apenas ao Garfield, ou este a ele), não deixe de rever. Se não viu, veja, é uma ordem! Particularmente, guardo os dvds da série clássica. Vez ou outra, armo-me do meu player, coloco o disco e me divirto com o excêntrico gato mais humano de todos os tempos. Não é uma afirmação negativa, nem, entretanto, otimista; apenas ressalta a ambiguidade do homem e, por que não?, de uma doce, pacífica, mas indiscutivelmente fina e sagaz pantera.
Jorge F. Isah