E seu eu mudasse de profissão?

Para quem não sabe, sou uma singela professorinha (como ternamente minha mãe me chama) de adolescentes, adultos, e, às vezes, de crianças. Dia desses me perguntei: e se eu mudasse de profissão?

Nunca me imaginei aposentando na profissão que exerço mesmo. Mas, de forma contínua, o pensamento bramou mais uma vez: e se realmente eu mudasse de profissão? Resolvi dar atenção a ele e passei a buscar alternativas que pudessem substituir minha docência. Não foi nada difícil, viu?! Recorri ao meu plano de adolescente, inspiradas pelos filmes pueris que me acompanharam até o início da vida adulta. Mais precisamente, a obra cinematográfica inspiradora foi “Meu primeiro amor” e o volume dois, para deixar bem claro.

Na trama, a madrasta da garota protagonista maquiava mortos. Isso mesmo, maquiava os mortos, os recém chegados à terra dos pés juntos; os que tinha acabado de vestir o paletó de madeira. Diante dessa sinopse, adivinhem só o pensamento daquela adolescente excêntrica? Ou adolescente comum, levando em conta de que agora convivo com os pequenos jovens e compreendo que as minhas maluquices eram traços da puberdade. Isso mesmo que pensastes. Lá fui eu, alimentando a vontade de que um dia eu me tornaria uma maquiadora de defuntos. Logo eu, que jamais havia encostado em algum.

Pois bem, o tempo passou e, é claro, não me tornei uma maquiadora de funerária. Cá aqui estou, mais de 10 anos depois, revisitando esse plano. Por que não agora tornar-me a embelezadora dos mortos. Além de a profissão me render “grana” pra custear a vida adulta,  esse ritual de autocuidado pós vida me renderia boas estórias para a revista. Ainda mais conhecendo bem o terreno fértil que é a minha mente. Mas querem saber? A ideia foi embrionária. Desisti logo que vi a remuneração. Um absurdo pagarem tão pouco para um profissional que será o responsável por fazer com que a sua vovozinha não tenha cor de fígado no dia em que ela será tão estimada por todos, pois, como bem escreveu  Machado de Assis em seu conto O empréstimo “Está morto: podemos elogiá-lo à vontade.”

Enfim, continuarei em minha profissão, até segunda ordem, mas que essa ideia remexeu-me os ânimos e aguçou a curiosidade de uma  escritora amadora, isso com toda certeza.

Jéssica Fernandes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados