O escândalo da LÍNGUA

Teórica ou tecnicamente, a escrita é o testemunho de uma língua que se caracteriza por ser um registro organizado com tendência a uma simplificação e economia. Em todas as línguas há palavras cuja criativa origem — chamada de raiz — origina dezenas de outras palavras. Entre os linguistas, duas correntes se destacam: uma de que a língua — ou as palavras criadas — geram novas percepções e desenvolvem o pensamento, e outra — adotada por especialistas com tendências mais progressista — de que não há diferença entre língua e dialeto, nem língua mais complexa e menos complexa.

Por que revivo este embate? Porque a falta de percepção do empobrecimento vernacular e da realidade traz incontáveis e danosas consequências. E o futuro, em que “ogros” e “noldor” não se distinguiriam, parece cada vez mais próximo.

A sobrevivência de alguns se dá, por mão e pela pena, dos bons escritores, dos textos inteligentes e reflexivos. Mesmo porque, dando uma rápida olhada nos livros infantis, para adolescentes e mesmo destinados ao público de ensino médio e superior, nas diversas bibliotecas, há maus escritores, de péssimo gosto, de ética errática e que estorvam mais do que colaboram.

Os escritores de boa cepa e fé têm diante de si uma muralha de difícil superação: o analfabetismo funcional e oralidade pobre. Diriam alguns que essa falta de habilidade se dá pelo declínio do ensino brasileiro, pela facilitação das avaliações escolares e a democratização dos gadgets largamente usados, igualando as pessoas socialmente pela posse e uso de, por exemplo, celulares e vídeo games. Em outras palavras, a preguiça ganhou.

Essa população investe tempo e energia em conversas vazias, assuntos superficiais ou estranhos e ostenta smartphones como apêndices umbilicais, pouco se lixando em compreender a realidade. Para ela — aparentemente — tudo nasce em árvores ou é dado por algum gênio invisível, ávido em satisfazer os seus desejos.

No país em que quase todas as coisas são escolhidas casualmente e abraçadas passionalmente, onde cada informação pertence à sua própria gaveta, ser diferente, valorizar o que não é socialmente valorizado e não ser escravo de qualquer ética de grupo é uma verdadeira saga.

Escrevamos sobre nós mesmos. Escrevamos sobre outras pessoas, sobre povos e sobre o mundo. Valorizar a vida e denunciar os manipuladores e seus círculos viciosos deveria ser missão de cada um. Ao menos, no âmbito pessoal, de se resguardar do lobo em pele de cordeiro.

Diante da estrita justiça do além, nenhum deles sairá impune.

Helvécio S. Pereira

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