Havia saído do consultório dentário e, na recepção, pedi à atendente para abrir a porta.
— Por quê?
Balancei a cabeça, sem entender.
— Porque eu preciso sair, ora!
— Infelizmente, não posso. O senhor tem de esperar.
Imaginei a minha cara deformada. Os olhos esbugalhados. A pele vermelha. E erupções pelo corpo. Estaria tendo um ataque e não sabia?
— Sente-se, por favor. Vai ter de esperar a doutora.
— Mas ela me dispensou, e…
— Ainda, não, senhor. Queira se sentar. Não pedirei novamente.
Pensei que fosse efeito da anestesia. Devia estar ouvindo e vendo coisas estranhas… Por isso, tantos imperativos.
Sentei-me e esperei. Na enorme TV da sala, um debate político jorrava dos pixels e alto-falantes para inundar o ambiente. Mais alguns minutos e as coisas não se alteravam. Não entendia nada que os comentaristas diziam.
— Quanto tempo tenho de ficar?
A jovem, antes simpática e educada, olhou-me de soslaio e, entre os dentes, prognosticou:
— O tempo que for preciso.
Voltou ao celular. Deu um risinho rápido, mas logo ficou hipnotizada, deslizando o dedo pelas páginas que subiam vertiginosamente.
O telefone tocou; ela atendeu com educação mecânica, transferiu a ligação e voltou ao aparelho. Enquanto os comentaristas tornavam o momento o Labirinto de Creta.
Olhei o relógio. Dez. Quinze. Vinte minutos. E nada. Levantei-me.
— Onde pensa que vai?
— No banheiro…
— Com autorização de quem?
— O que devo fazer? — apontei para baixo — Aqui mesmo?
Com o dedo, indicou a direção do corredor.
— Segunda porta à esquerda. Não vai errar. E seja rápido.
Entrei. Depois… lavei as mãos. Sequei-as. Esfreguei os cabelos. O rosto estava normal. Nada indicava um mal súbito. Que diabos estava acontecendo?
Saí. Na recepção, não precisei olhar a atendente. Ela já apontava a poltrona, antes mesmo de eu entrar no recinto.
Meia-hora. Mais um quarto. Estava impaciente. Mas ela, mesmo sem me olhar, já sabendo das minhas intenções, fechava o semblante até o próximo short no celular.
Quando uma hora depois a doutora finalmente surgiu, respirei aliviado. Levantei-me.
— O senhor não parece bem… sente alguma coisa?
— Não, de jeito nenhum! — bati na roupa como se tirasse poeira, soltei um daqueles enormes sorrisos e fui tão efusivo quanto pude. — Estou novo em folha.
— Não parece… Vamos esperar mais.
— Mas… doutora…
— Psiu! Não discute e sente-se! — a voz irritadiça da atendente jogou-me no sofá.
Peguei uma revista de moda ou coisa parecida, mas fui advertido.
— O senhor não pode forçar as vistas! Largue isso!
Que raios dos infernos!… Que loucura era aquela?
Foi quando a porta se abriu e, pensei, é agora.
Corri para fora, mas o segurança barrou-me.
— Cadê a autorização?
— Que autorização?
— Para sair, precisa de autorização.
— Este é um país livre. Não preciso de autorização nenhuma.
Ele balançou a cabeça, enfastiado.
— Cada maluco que aparece…
Levou-me para dentro.
— Ele tentou fugir,
A recepcionista fez “Tsc, tsc”.
— Quem ele pensa que é?
E mostrou o assento.
— O que é isso tudo? — esbravejei.
— Comporte-se, senhor. Ou serei forçado a tomar outras medidas.
— Isso é um abuso. Estou preso, sem saber o motivo, sem explicação, e não vou ficar calado. Quero sair agora!
O segurança colocou a mão no meu peito.
— Senhor, é para o seu próprio bem.
— Quem disse?
— Nós.
— Mas quem são vocês para me dizerem o que fazer, aonde ir e onde ficar?
Apontou para um enorme logotipo na parede.
— O que Têmis faz no lugar de Esculápio?
— Ah?!… Não importa. Temos o poder de deixar ir ou mantê-lo aqui. Comporte-se, ou o prenderei por desacato, enquanto o seu caso é analisado.
— Caso? Que caso?
— Não posso dizer. Está sob sigilo.
— Vocês são um bando de loucos!
Afastei a mão do segurança. Ela voltou, como se não tivesse mexido.
— Para o seu bem, acalme-se. É melhor assim.
Nisso, outro segurança entrou. Ainda maior e mais forte, com braços da grossura do fêmur de rinoceronte.
— Algum problema, Edgar.
— Não, pode deixar. Está tudo sob controle.
Pegou-me pelo braço e arrastou-me pelo corredor até o final. Abriu-se uma porta. Era uma espécie de quarto do pânico, sem ventilação e janelas. Apenas uma luz no teto. Jogou-me no chão. A luz se apagou. Os olhos demoraram a se acostumar. No canto oposto, vi um vulto. Era um rapaz magérrimo. Encostado na parede. Ele me encarava.
— Que raios está acontecendo?
— Não lhe falaram?
— Não…
— Pois a mim também não.
— E quanto tempo está aqui?
— Uns quatro ou cinco anos.
— Ah?!… Tá maluco?
— Não. Deixei de contar os dias há muito…
Peguei o celular. Ele riu, melancólico.
— Está perdendo tempo. Aqui tem bloqueador de sinal. Já passei por isso. E antes de mim, o Sílvio também.
— Quer dizer que estou preso? De verdade?
— Sim, está.
Nisso, abriu-se uma portinhola e dois pratos foram empurrados para dentro. Havia arroz, feijão, frango frito e duas rodelas de tomate. O outro começou a comer. Eu olhei o prato e empurrei-o de volta.
Odiava frango!
Nem mesmo a cadeia seria capaz de mudar isso.
Jorge F. Isah