Lembro-me de, ainda criança, esperar que todos em casa dormissem para ligar a TV, uma Zenith valvulada de 24”, por volta das 22h30, para assistir à antiga “Sessão Coruja”, na Globo. Antes, observava se meus pais estavam dormindo — caso o velho não estivesse roncando, o que era facilmente perceptível. Depois, dirigia-me à sala, ligava o transmissor, diminuía o volume e me encostava à tela, esperando um antigo clássico em preto e branco.
Raramente, mesmo tendo 11 ou 12 anos, dormia antes da madrugada. E assim vivia a aventura de, furtivamente, desobedecer aos patriarcas e me deliciar com os grandes nomes do cinema e seus filmes maravilhosos.
Um dos meus atores prediletos à época, e que se conservou, era Jack Lemmon. Em muitos aspectos, Lemmon me fazia lembrar os maneirismos de Ronald Golias, o Bronco (para mim, um dos maiores comediantes brasileiros), sem o exagero tão acentuado. Talvez a minha admiração pelo americano estivesse intrinsecamente ligada à simpatia com o brasileiro, a quem conheci muito antes de sequer ouvir falar de Jack Lemmon.
Hoje, provavelmente a maioria o desconhece e, desgraçadamente, se priva de acompanhar um dos maiores atores de todos os tempos.
Mas quem ele foi?
Jack Lemmon nasceu em 1925, em um elevador na cidade de Boston, Massachusetts. Diz a lenda que a sua mãe, Mildred Burgess LaRue (casada com John Uhler Lemmon Jr.), quase em trabalho de parto, se recusou a abandonar uma partida de bridge e, portanto, não houve tempo suficiente de instalá-la numa adequada sala hospitalar. Algo inusitado, mas com algum simbolismo, já que o recém-nascido, mesmo antes de vir ao mundo, galgou rapidamente o pináculo, e isso marcaria a sua ascensão ao estrelato cinematográfico.
Autodidata, aprendeu, ainda criança, a tocar piano, gaita, órgão, guitarra e contrabaixo. Formou-se em Ciências Políticas na prestigiada Universidade de Harvard, mas, desde cedo, sempre almejou tornar-se ator, fato que ocorreu tão logo terminou a sua participação, como voluntário, na Segunda Guerra. Começou na TV, em uma série intitulada “That Wonderful Guy”, em 1949.
O primeiro filme, em 1954, foi “Demônio de Mulher” e, já em 1955, aos 30 anos, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante com o filme “Mr. Roberts”, sob direção de Richard Quine. Indicado oito vezes, em 1973 ganhou a estatueta de Melhor Ator por “Sonhos do Passado”.
Trabalhou com os maiores diretores de sua época, destacando-se especialmente as parcerias com Billy Wilder (sete filmes, entre eles os clássicos “Quanto mais quente melhor”, “Se meu apartamento falasse” e “Irma La Dulce”), Richard Quine (cinco) e Blake Edwards (três). Mais conhecido por suas comédias (embora também excelente ator dramático, vide as atuações em “Vício Maldito”, “Síndrome da China” e “Missing”, por exemplo), estão entre as melhores de todos os tempos, e de parcerias famosas com Marilyn Monroe, Tony Curtis, Shirley MacLaine, e a mais famosa foi, sem sombra de dúvidas, com Walter Matthau: participaram de dez filmes juntos, e Lemmon o dirigiu em “Ainda há fogo sob as cinzas” (1972). Nos anos 90, protagonizaram filmes em que riam de si mesmos: “Dois velhos rabugentos” e “Dois velhos mais rabugentos”, onde contracenaram com outro grande ator, Burgess Meredith, o impagável “Pinguim” da série Batman e treinador de Rocky Balboa nos filmes Rocky I, II, III e V.
Carismático, engraçado, gentil e cooperativo, levava a qualquer set de filmagem não somente o seu inegável talento, mas também a sua personalidade serena e cordial. Modesto, definia-se como um “operário da arte cinematográfica”, a despeito dos inúmeros prêmios e depoimentos de críticos e colegas, que o reputavam um gênio das artes cênicas.
Certa vez, perguntaram a Billy Wilder o que era felicidade, e ele prontamente respondeu: “trabalhar com Jack Lemmon”.
Algumas frases célebres:
“Não importa quão bem-sucedido você seja, sempre mande o elevador de volta.”
“Minha carreira foi cheia de coincidências notáveis que não têm nada a ver comigo.”
“Ninguém merece muito dinheiro, certamente não um ator.”
“Algo, com certeza, vale a pena se não for fácil. Se for, não deveria valer a pena.”
“Eu preferiria atuar em Hamlet sem ensaio do que jogar golfe de TV.”
“É difícil escrever um bom drama, e muito mais difícil escrever uma boa comédia, e mais difícil ainda escrever um drama com comédia. Que é como a vida é.”
“Morrer não é pecado. Não viver, é.”
“Falhas não param você. O que para é o medo de falhar.”
“Não tinha desejo de estar no cinema. Todo o meu treinamento foi para o teatro, graças a Deus.”
“A morte é o fim da vida, não um relacionamento.”
“Nunca perdi a paixão total pelo meu trabalho.”