– A superfluidade humana –
“Retrato de uma Senhora” é um livro de conflitos, a perpassá-lo em cada página, parágrafo, linha. Henry James é um autor e tanto. Ele penetra e fustiga seus personagens até espremê-los à exaustão e ao limite de suas forças (dele e deles). E o amor parece ser a causa, a origem de todos os embates e hostilidades nessas relações. Seja o amor à pátria, ou alguém, ou a si mesmo, seus desejos ou convicções, nada é fácil, ou melhor, puro, aos olhos dos personagens. Existe sempre uma áurea de maldade, de oposição, a impedi-lo de se concretizar, materializar-se, em meio às imperfeições e sutilezas aspiradas por almas incapazes de fazer o bem, ainda que o almejem — Ralph, certamente o personagem mais fascinante do livro, mesmo pretendendo fazer o bem, acaba por reconhecer que o bem pretendido não foi além do mal realizado.
Ainda que seus esforços sejam nobres, dar à sua prima, Isabel, os meios para realizar o seu idealismo: ser uma mulher do mundo, conhecendo-o, em sua ânsia por liberdade; motiva-o a satisfação de ser o benfeitor anônimo, numa prova de desprendimento, mas também de ascetismo mórbido – quem ler o livro entenderá.
A ideia de narrar a trajetória de Isabel, no decorrer de alguns anos e, especialmente, o que lhe sucederia, sendo uma jovem moderna, independente e visionária, leva-o, a investigar o fracasso, digo, a frustração de homens e mulheres a circundá-la; satélites perturbados e caóticos, enquanto a estrela central se implode, incapaz de manter a si mesma e ao seu círculo na rota da felicidade. Estão sempre em rota de colisão…
Não é o retrato de uma senhora, mas da alma humana, de uma sociedade na qual a busca da felicidade tem tão duros e insuperáveis obstáculos que o desgosto parece ser a forma natural de se viver enquanto os sonhos se dissipam, como barcos de papel numa tempestade.
O mal se faz sentir nas doenças, nos encantamentos, nas aspirações, nos convívios, amizades, casamentos, traições e tentativas; percorre os sentimentos, os atos, os desejos, e nem mesmo uma alma angélica e adorável como a de Pansy está imune à tristeza de, sendo cândida, pagar pela impureza dos outros — mais especialmente de seu pai, Osmand e de sua amiga, madame Merle. Esta, com certeza, é ladina, finória, vivendo em uma constante trama, planejando tirar de quem quer que seja — quanto mais próxima, menor a chance da vítima — as vantagens necessárias para sobreviver, sem ser ela capaz de retribuir na mesma moeda.
É difícil escrever sobre uma história sem contá-la; e é o que venho tentando fazer, sem as vezes obter sucesso. Nada além de relatar o mínimo necessário para aguçar o interesse do leitor, de que ele se disponha a comprar o livro e venha a descobrir coisas que não descobri, e ver o que não vi. Tomara que, com o mínimo, leve alguns a desejarem o muito.
Retrato de uma Senhora é um grande livro, dos melhores que li ultimamente. A trama é elaborada, sem os constantes e desnecessários “sustos” e “perplexidades” que as obras atuais se especializaram, como a maneira mais fácil de fisgar o leitor (ah, o artificialismo de uma era… Como num thriller “sem pé nem cabeça”.
Não é um livro fácil, mas, certamente, na medida que se dá voz às personagens, acaba-se por criar empatia e cumplicidade com alguns deles… O grande livro somente o é se amamos e odiamos, apiedamos ou desprezamos certos atores e seus atos.
Escrito no final do século XIX, é uma obra universal. Talvez, e somente talvez, eu gostaria que James tivesse reduzido o volume total de páginas em algumas dezenas — cinquenta seria um bom número. Mas não serei eu a desprezar uma linha sequer; pelo contrário, tenho-as, cada uma, como importante, mesmo em suas imperfeições ou excessos.
Creio que a maioria desprezaria ou não entenderia os percalços, dúvidas e esquemas abusivos e caprichosos em que as pessoas se inseriam ou eram cooptadas. A questão pode ser de um apelo à “primitividade” humana, tão distante da “liberdade” com que se pode gozar atualmente.
Na verdade, o livro vai muito além da superficialidade das relações e seus meandros, e que parecem desmerecê-los em prol dos modernosos avanços do sec. XXI. Ledo engano.
O homem descrito por James, conhecia mais de si mesmo e do outro, e por isso não tinha ilusões, ao menos não se entregava a elas como um cão ao osso. Mas isso não o fazia completo ou absoluto — tem gente que ao ouvir essa palavra tem febre e urticária.
Ao contrário da fleuma de superioridade das apreciações e conceitos “modernos”, o homem permanece o mesmo em sua busca de felicidade, satisfação e realização, mas esquece-se de nelas residir o seu ser. Ele nada mais é do que aquilo que faz ou pensa fazer, para o bem ou para o mal. Ele não é, se não fizer; e mesmo fazendo, deixa de ser. Não o que é, mas o que deseja ser ou pensa ser. Por que isso? Porque a leitura de qualquer obra deve, no mínimo, não ser apenas a apreciação da história pela história, mas o que ela revela do mundo, do conhecido, do desconhecido, do tangível, do intangível, do natural, do sobrenatural — por fim, do homem e de Deus.
Henry James não escreveu sobre a necessidade do homem: Deus — ainda mais sendo um agnóstico — mas ao descrever a insuficiência humana e o seu fracasso, deixou nas entrelinhas, e sem querer, essa exigência: pela falta sabe-se carente, mas também do que buscar para ter.
“Retrato de uma Senhora” é a síntese da superfluidade que em nada preenche ou pode preencher o homem.
Jorge F. Isah
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