— É aqui.
— Tem certeza?
Não quis titubear.
— Claro que é… Veja bem, número 825… Olha, aqui.
Tirou do bolso um papelzinho com a indicação.
— Rua Jacinto Oliveira Rou…
— Roucheteau… seu burro.
— Não sei pra quê as pessoas têm nomes tão estranhos… Quem vai se chamar… isso aí? Não era melhor Rocha ou da Rocha?
— E o que isso tem a ver?… Esquece essas bobagens que você tem na cabeça e vamos ao que interessa.
Olharam a placa no alto do muro. Logo acima do nome da rua.
“CUIDADO! CÃES BRAVOS! NÃO ENTRE!”
— Você disse que era manha… E de que não tinha perigo…
— E não tem, seu tonto! Está ouvindo algum latido?
— Não… mas…
— Psiu! Silêncio. Ouça.
Aguçaram os ouvidos. Além do vento a mover as folhas das árvores, um pio de coruja se uniu ao motor de um carro distante.
— Isso foi coruja?
— E como vou saber? Só conheço frango e peru no prato.
O outro parecia preocupado.
— Não gosto disso… corujas me dão arrepio… é sinal de mau-agouro.
— Deixa de ser supersticioso. Nem sabe se é coruja ou não. Pode ter sido um pardal ou uma rolinha.
— Pardais e rolinha não piam à noite.
— E como sabe? Por acaso é entendido em pássaros?… Como se chama… Ah, deixa pra lá!
— Nasci e vivi na roça… conheço o piado de uma coruja.
— E daí? Existe coruja X9?
O outro estava pensativo.
— Dedo-duro, não. Mas sempre dão azar… e este muro é muito alto… e aquela placa também não é bom sinal.
— Você é cheio de manias e superstições… Nunca vi homem assim… Conhece aquele ditado: quem tá na chuva é pra se molhar?
— Conheço. Mas não tá chovendo.
— É um ditado, seu burro!… Ah, onde fui amarrar a minha égua.
— Onde? Onde?
Moveu o pescoço nervosamente para a esquerda e direita.
— Vamos ao que interessa.
— Mas, e o aviso?
— Os cães?… O meu amigo disse para não preocupar, porque a maioria das casas tem essas placas apenas para afastar gente como nós. No fundo, ele nunca viu um vira-latas na redondeza. E ele sabe do que diz, pois é jardineiro e já trabalhou em quase todas elas.
— Sim, mas por que então ele não está aqui conosco?
— Ele é trabalhador, homem! Tem de acordar cedo para o batente. Não pode ficar dando sopa à noite… é também muito conhecido e ia chamar a atenção.
Ainda pensativo.
— Não sei, não… isso não está com boa cara.
O outro balançou a cabeça.
— Além de supersticioso é pessimista. Por isso, você não sai do lugar… Sabe que a palavra tem poder, né!
Olhou o companheiro atentamente.
— As palavras têm poder de realizar desejos… Foi o que um pastor disse.
— Vem no papai, vem!
Abriu os braços no vazio. E entreolharam-se, uns segundos.
— Que raios está fazendo?
— Se a palavra tem poder, quero todo o dinheiro aqui agora, sem precisar esforço.
O segundo deu um tapa na testa.
— Mas tu é lesado mesmo. É claro que não funciona assim… Você tem de seguir… como se diz… é… hum… um código, regras, para a coisa funcionar.
— Quem disse?
— O pastor, ora!
— Você vai à igreja?
— Fui uma vez, para sondar o lugar. Mas era seguro demais. Além de câmeras, alarmes e segurança noturna, uma viatura da polícia ficava a noite toda bem no início da rua.
— Uai! E o tal poder da palavra? Não bastava ele dizer que estava seguro e pronto?
— Ah, que se dane! Eu quis dizer, na verdade, que você é derrotista demais. Nunca vai pra frente, porque só vê problemas e tem medo de encarar.
— Encarar quem? Você?
— Não eu, os problemas, sua besta!
— Ah… sou macaco velho… não quero me ver metido em alguma cumbuca.
— De que raios está falando?
— Ser pego ou tomar chumbo no traseiro.
— Não tem ninguém em casa. Estão viajando, de férias. Vai ser moleza. Já está tudo esquematizado… Vamos, porque não temos a noite toda.
Ergueram a escada e subiram. O primeiro disse:
— Não vejo nada.
— Então chega pra lá. Para eu subir também.
Ficaram no alto do muro. O segundo viu que a árvore estava um pouco mais longe do que imaginava. Tentou alcançar um ramo sem sucesso.
— Você tem o braço maior. Vê se pega.
O primeiro alcançou o ramo. Puxou o galho, que se soltou.
— Não tem jeito.
— Tem de ter.
— Como?
— Sou prevenido.
Puxou o saco preso às costas. Remexeu e tirou um rolo de fio de nylon.
— Vamos descer nele.
— Isso não vai aguentar… duvido.
O outro lançou o fio e o prendeu em um cabo de aço exposto entre o concreto do muro. Deu dois, três, quatro puxões.
— Está firme. Vamos.
— Você, primeiro.
O segundo balançou a cabeça. Pensou em dizer algo, mas desistiu. Segurou firme o nylon e desceu. Fez o gesto com a mão, e sussurrou para o outro.
— Vem!
Cabreiro, o outro puxou várias vezes o fio para ver se estava realmente firme. Ele era maior e mais pesado. Quem garantia que o nylon resistiria a ele também?… Com cuidado, ganhou o chão.
Quando se viraram, do nada, os observavam dois enormes colossos. Os jornais, dias depois, disseram não ter certeza se eram Canes Corso ou Presas Canario. O certo é que não latiram, rosnaram ou emitiram qualquer som antes de pularem sobre os dois homens. Sem tempo de reação, além do grito e desespero do primeiro, o segundo apenas disse, quase de si para si mesmo:
— Eu sabia…
*****
Só foram descobertos uma semana depois, quando os donos chegaram de viagem. Viram os dois no mesmo local onde havia uma corda de nylon estendida. Estavam em péssimo estado, mas os cães, aparentemente, não se serviram deles.
O dono chamou a polícia. Chegaram várias viaturas e peritos. A imprensa chegou um pouco antes. Houve um princípio de tumulto na rua, que não durou.
Do lado de dentro, o proprietário era interrogado. E bastaram alguns minutos para sair algemado e no camburão, acusado de homicídio doloso.
No tribunal, foi condenado a 15 anos de prisão. Segundo a procuradoria, ele agiu de caso pensado, pois os muros, as placas e os cães demonstravam premeditação e violência gratuitas, que significaram a morte de dois inocentes. A defesa alegou que a propriedade era privada, havia vários alertas para não entrar por causa dos cães — e cães bravos, ressaltou o defensor — e que os supostos inocentes eram ladrões com prontuários extensos. O juiz, porém, concluiu que o risco da tragédia não fora provocado pelas vítimas, mas pelo réu que não poderia ficar impune depois de agir com desprezo e deliberada violência contra a vida de dois cidadãos. Ademais, propriedade privada não pode ser confundida com campo de extermínio, ressaltou o magistrado.
A mulher vendeu a casa. Se mudou para o sul do estado, divorciou-se do marido, se envolveu em ações sociais e se casou com o presidente da Ong de ativismo à preservação do gambá fujão.
Os cães foram sacrificados, era o que diziam os documentos legais. Mas um dos detetives encarregado de cuidar do destino da dupla, compadeceu-se e os levou para o seu sítio, onde vivem felizes.
E se alguém duvida das parêmias, pense duas vezes depois de ouvir o pio da coruja.
Jorge F. Isah