A AGENTE SECRETA

Ela não assistiu o filme homônimo com o Wagner Moura. Na verdade, quase ninguém assistiu, porque era muito ruim. Mesmo assim, ela acreditava fazer parte de uma missão impossível. Todos os olhos estariam voltados para ela. Dizia que o seu telefone estava clonado. Trocou de aparelho sete vezes, nos últimos três meses. Trocou de chip dezesseis vezes. Entrava no WhatsApp, acionava a tecla de gravação de voz e afirmava que estava sendo monitorada, mostrando para todos o resultado que nada mais era do que a sua própria respiração ofegante.

Alterava o nome do perfil frequentemente, como se isso valesse alguma coisa. Nunca voltava para casa pelo mesmo percurso. Só abria o portão quando a rua ficava absolutamente vazia, dando voltas e mais voltas na quadra em que morava até que resolvesse entrar. Ficava vigiando os vizinhos, olhando através de uma fresta da janela. Passava grande parte do dia assim.

Certa vez estava em uma lanchonete e o homem ao seu lado perguntou se iria usar o ketchup. Ela entendeu “Agente Shultz”? E respondeu que sim, emocionada, pensando que, finalmente, recebera um codinome digno de uma agente secreta e seria designada para uma missão importante, sabe-se lá onde, mas aceitaria, sim, aceitaria, pela honra da Coroa Inglesa. Mas ela estava no Brasil, e não havia a mais remota possibilidade de uma ação daquele país em conjunto com a nossa Polícia Secreta, que só servia para chantagear políticos corruptos.

Dali em diante ela não tirou os olhos do homem, que passou a ficar incomodado, e principalmente a namorada dele, quando resolveram pegar os seus sanduíches e levá-los para comer no carro. Mas ela foi atrás.

Eles começaram a correr pelo estacionamento e ela também apressou o passo. Os sanduíches caíram no chão, mas eles não se importaram e conseguiram entrar rapidamente no veículo, travando as portas. Ela ficou batendo no vidro da porta do motorista, mas ele ligou o carro e saiu cantando os pneus, derrubando no chão a frustrada agente.

Mas não foi o suficiente. Meteu-se em inúmeras outras situações constrangedoras, como da vez em que se sentiu vigiada em uma loja de departamentos e escondeu-se atrás da pilastra, voando nas costas do fiscal, que realmente a estava vigiando, pois desconfiou de sua atitude suspeita e pensou que ela estava tentando furtar algum produto. Foram parar na delegacia, mas por sorte o delegado se deu conta de que ela não era “boa da cabeça” e a liberou depois de convocar a presença de uma irmã para acompanhá-la. Saiu de lá falando que o delegado e o fiscal da loja faziam parte de um “esquema muito maior”, e que ela descobriria toda a verdade.

Foram tantos os episódios que eu gastaria algumas horas para contar, mas tenho que ir ali tomar uma sopinha. Depois continuo.

Michel Salomão

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