Primeiro, quero dizer que não sou fã dos Simpsons; assisti a alguns episódios com o meu filho, quando este era pequeno, como pai zeloso pela educação da prole, e não sei muito mais do que a maioria das pessoas diz. Entretanto, sei da importância da série, a tratar de assuntos banais, mediais e boçais, sempre com aquele apelo crítico do mainstream político/ideológico. Se você espera uma análise profundamente apaixonada ou um rasante analítico, pode tirar o cavalinho da chuva. Não iremos a lugar nenhum.
Ao pesquisar sobre o personagem, descobri que ele está na galeria das maiores personalidades do século XX e, quiçá, XXI, presente em várias listas de celebridades, ao lado de políticos, esportistas, artistas e outros influentes. Veio-me à mente a pergunta: que raios tem a contribuir Bart Simpson para o mundo? Além de ser o estereótipo de algumas gerações e o fetiche de muitos? A verdade é que ele foi valioso para os seus criadores, produtores e outros setores do entretenimento, ou a “Indústria”, se me entende.
Saído da mente dos irmãos Matt e Mark Groening (o irmão mais velho de Matt não tem participação direta na criação, mas foi a principal inspiração), tornou-se um ícone, a partir da exibição do piloto em 17 de dezembro de 1989, no episódio “Simpsons Roasting on an Open Fire“. Ao criar uma família desestruturada e problemática, Matt se inspirou na sua própria família, ao ponto de os personagens ganharem os nomes reais dos seus parentes. No início, Bart se chamaria Matt, mas o criador achou melhor alterá-lo, ao imaginar o mal-estar dos executivos com algo tão explícito e evidente. Como a sonoridade de Bart (Bartholomew) é parecida com Matt (de Matthew), a questão foi definitivamente resolvida.
A voz de Bart é de Nancy Cartwright, que também interpreta outros personagens da série, inclusive Maggie. No Brasil, foi dublada primeiramente por Peterson Adriano e, a partir de 1997, por Rodrigo Antas.
Groening inspirou-se também nas figuras criadas por Mark Twain, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, além do indefectível Dennis Pimentinha, de “Hank” Ketcham, incorporando vários dos seus traços em um único garoto, peralta, endiabrado e rebelde, que conseguia, às vezes, sair ileso de suas travessuras.
Tem o relacionamento animoso com a irmã do meio, dois anos mais nova, Lisa, garota solitária, inteligente e sensível; e não raras vezes se envolvem em disputas e combate físico. Contudo, se ela é ameaçada por terceiros, Bart é o primeiro a protegê-la, demonstrando que, apesar do ciúme, ele a ama. Dentre os relacionamentos familiares, Maggie, a caçula, é a preferida de Bart. Como alguém disse, é provável que os laços afetivos entre eles seja fruto de a irmãzinha ser bebê.
Como todo garoto, ele tem inimigos e disputas. Tem amigos e aliados. Tem também seus sonhos e pesadelos. Não gosta de estudar e de se empenhar na escola, talvez por Lisa ser uma aluna tão superior e quase inalcançável para ele.
Da mesma forma que todo ser humano, Bart tem virtudes e defeitos. A questão é o quanto a sociedade tem laureado os vícios e desprezado as qualidades. Parece que vivemos em um mundo paralelo, onde a verdade, a moral, ética, o que manteve e sustentou por milênios o ocidente, em termos qualitativos, precisa ser definitivamente roído e aniquilado; e em seu lugar a deformidade e delírio estimulados por um tipo de ódio inominado a si mesmo e aos outros.
Ao criar uma família para lá de estereotipada, Groening agiu meio que profeticamente, pois os Simpson têm se tornado cada vez mais o modelo das relações e interações sociais. Com isso, não estou a dizer que seja de todo equivocado, afinal, é arte, ficção, e toda obra tem o seu quinhão de tangível. Entretanto, basta ler, ouvir ou assistir a boa parte das palestras, debates, filmes, novelas e livros para entender a campanha de difamação da realidade, onde negá-la é o ápice da inteligência e perspicácia, quando, para bom entendedor, não passa de canibalismo e deturpação, a tal da paralaxe cognitiva (Hollywood não deixa mentir).
Como disse, no início, não sou entusiasta dos Simpsons, mas reconheço a importância do sitcom, assim como a Família Dinossauro foi em sua época, e os Flintstones décadas antes. Todos tentam, à sua maneira, retratar o real com cinismo e deboche, mais para cá do que para lá, mas sem a necessidade premente de fidelidade, o que além de compreensível é desejável. O problema é quando os valores ficcionais, ou a ampliação deles, são preconizados como efetivos e objetivos. Ao ponto de se suprimir o real pela simulação e invenção.
Ainda mais ambíguo é o fato de os promotores dessa linha filosófica-ideológica jamais viverem segundo os seus princípios, e a maioria se exclui do próprio discurso. Querem apenas subjugar e compelir seus conceitos aos outros, enquanto encastelam-se em um mundo “auto nepotista”, onde é o único beneficiário da desgraça alheia.
Bart é, em algum sentido, a mistura do velho e do novo, talvez a apontar para o “futuro novo homem”, moldado pela liberdade de alguém, ou alguns, a ser o serviçal, o prisioneiro, menos conhecedor da sua própria condição em toda a história. Para alguns, não basta ser escorraçado e abandonado, mas há de ser com orgulho.
Como na fábula de Monteiro Lobato, o Jequitibá gabola não viu a própria queda, nem a nudez colossal à mostra, despedaçada pelo chão.
E Bart, antes uma piada divertida, se tornou no modelo “standard” do establishment.
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Frases:
- “Ai Caramba!”
- “Eat my shorts!” (Coma meus shorts)
- “Eu não posso prometer que vou tentar, mas vou tentar tentar”
- “Bom, não importa como você vive ou o que fez errado. Se você estiver na TV, as pessoas vão te respeitar”
- “O mundo pode acabar em 2012, mas esse programa não”
- “Você não pode me vencer! Eu sou… Bart Simpson”
- “Ninguém está interessado nas minhas cuecas”
- “Fazer o Milhouse chorar não é um projeto de ciências”
- “Eu não cobrarei ingresso para o banheiro”
- “Barulhos engraçados nem sempre são engraçados”
- “Meu dever de casa não foi roubado por um homem de um braço só”
- “Dizer ‘acredite em mim’ não torna as coisas reais”
- “Ninguém gosta de levar tapas nas queimaduras de sol”
- “A ‘Primeira Emenda’ não cobre arrotos”
- “Cuecas devem ser usadas dentro das calças”
- “Os peregrinos não foram alienígenas”
- “Ninguém quer ouvir as minhas axilas”
- “Peixes não gostam de café”
- “Pérolas não são vômitos de ostras”
- “Bob Esponja não é um método contraceptivo”
Jorge F. Isah