O HOMEM PERUCA

Ele possuía um cérebro prodigioso. Poderiam dizer que era o mais fabuloso de sua geração, quem sabe do século. Mas havia um delicado problema: nasceu sem a calota craniana e ficava com aquela descomunal noz acinzentada e pulsante totalmente exposta.

Passou os primeiros anos da vida protegido por fraldas e gorros que não lhe tiravam por motivo algum. Depois que começou a andar, recebeu um boné revestido por uma chapa de alumínio, mas os pais sempre o orientavam a não cabecear as bolas quando fosse jogar futebol. Os meninos da escola, os vizinhos e os primos sabiam de sua condição e ficavam curiosos para ver o truque que ele gostava de exibir, que consistia em introduzir em suas rugosidades dois fios desencapados, produzindo faíscas coloridas.

Quando atingiu a adolescência, com o advento do rock ’n’ roll, descobriu a existência das perucas, que muitos de seus ídolos usavam sem que ninguém soubesse, e assim adotou algumas bem compridas, a maioria delas onduladas, para imitar os astros mais famosos do seu tempo, como Peter Frampton, Roger Daltrey, Robert Plant e Jimmy Page, e variava entre as cores preta, loura, branca, vermelha e, mais tarde, verde e azul.

Nesse intervalo, a ciência evoluiu consideravelmente, e os cientistas da universidade local inventaram uma espécie de carapuça feita com os mesmos materiais que compõem os coletes à prova de balas, que era parafusada junto ao que seria o início da faixa dos cabelos, e assim permitia que as perucas fossem ali afixadas, evitando que se desprendessem com ventos fortes ou com a ação de algum engraçadinho empenhado em ridicularizar o seu semelhante.

Descoberto por uma fabricante de cabelos artificiais que garantia ser o seu produto melhor e mais eficiente do que os transplantes e próteses até então utilizados, que consistia na implantação de implantadas nanoesferas diretamente sob a pele, em qualquer lugar do corpo, ou mesmo em superfícies inorgânicas (como a carapuça de nosso personagem), e elas se desenvolviam em vigorosos fios sedosos, alimentadas pela ação do oxigênio misturado com uma fórmula química patenteada e guardada como segredo de Estado, mas sabia-se que um dos elementos utilizados seriam os rejeitos do petróleo, o que tornava a experiência extremamente acessível e lucrativa.

O resultado inicial foi surpreendente, e logo se formou uma vasta cabeleira em sua cabeça antes devastada, e a experiência viralizou no YouTube, no TikTok, no Instagram e no Facebook, fazendo com que as vendas do produto se tornassem avassaladoras. O problema é que, em pouco tempo, verificou-se que as esferas criavam raízes, que iam se aprofundando e dominando todo o cérebro, levando o seu usuário à loucura e a uma morte terrível.

No caso de nosso personagem, bastou extrair em tempo hábil a sua calota artificial; mas os demais usuários não tiveram a mesma sorte, sendo contabilizados milhões de óbitos ao redor do planeta, chegando ao ponto de praticamente serem erradicados todos os carecas do mundo, levando algumas publicações de humor ácido, como uma tal Revista Bulunga, a noticiar que, finalmente, haviam encontrado uma solução definitiva para a calvície, com o extermínio dos calvos. No entanto, toda a responsabilidade recaiu sobre o nosso garoto-propaganda, sem que a multinacional sequer fosse acionada judicialmente.

Ele acabou se isolando em uma colina distante, próxima a Machu Picchu, e todos aqueles problemas decorrentes da rejeição da sociedade e o estigma da culpa fizeram com que negligenciasse os cuidados com a sua anomalia, permitindo que vespas-da-cabeça-vermelha formassem um ninho em seu cérebro exposto, momento em que foi acometido por uma grave infecção, vindo a falecer aos 28 anos de idade.

Michel Salomão

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