A vida policromática em “Ruído Branco”, de Don DeLillo

Este é o meu segundo livro de Don DeLillo; o primeiro, “Os Nomes”, foi lido ainda na década de 90. “Os Nomes” é um livro muito mais introspectivo, mais intimista, quase uma confissão do personagem principal. Pelo menos, é o que apreendi da leitura, passados mais de 20 anos, e durante esse período acalentei ter outra de suas obras em mãos, mas, por uma série de contingências, somente agora foi possível. Ainda espero, se Deus quiser, reler “Os Nomes” e fazer uma leitura mais acurada e madura.

Quanto a “Ruído Branco”, o tema principal, em um universo de muitas personagens, é a morte. Sim, a morte; a começar pelo protagonista, Jack Gladney, um professor universitário especializado em “Hitler” ou, mais especificamente, na matéria Hitlerologia. Haverá melhor forma de começar um livro sobre o tema da morte do que informar a profissão/função da personagem principal? Só se ele fosse também um “Stalinorologista”, “Leninologista”, “Maologista”, “Castrologista”, ou um patologista forense. Chega a ser “sui generis” que essa matéria tenha ganhado uma cadeira universitária, mesmo em uma faculdade minúscula no interior dos EUA. A despeito disso, parece-me que a matéria, e o seu professor, ser a expoente daquele ambiente, mais pela bizarrice do que propriamente pela sua relevância. Seria o mesmo que um acadêmico brasileiro criasse a cátedra de “Getuliologia” ou “Lulologia”, guardadas as devidas proporções, claro  — espero que ninguém se aventure e copie a ideia.

Bem, posto isso, como não sou de descrever enredos, situações, e resumir a trama dos livros, vou-me ater aos pontos que me parecem necessários, sem tirar a graça do futuro leitor que deseja se embrenhar na narrativa de DeLillo.

Primeiro, a leitura é fluente, a despeito de alguns detalhes e tramas prescindíveis. Não digo que sejam desnecessárias, mas o livro poderia ter sido reduzido em, pelo menos, umas duas dezenas de páginas, sem perder em nada a essência narrativa.

Segundo, a maioria dos personagens é paranoica, neurótica, obsessiva, quando não lisérgica ou desinteressada ao extremo. Não sabia a data em que foi escrito até iniciá-lo. Em princípio, situava-o por volta dos fins dos anos 60 e início dos 70. À medida que o enredo se desenrolava, percebi que se ambientava no início dos anos 80, o que confirmei hoje, lendo uma pequena biografia do autor  — normalmente faço antes da leitura, não sei por que, cargas d’água, somente fiz agora, após o desfecho final .

Na primeira parte, ele se parece com um “dejavu” dos anos 60, em meio aos anos 80, ou seja, pessoas que cresceram na época da revolta e libertarianismo (o famoso clichê “sexo, drogas e rock’roll”), estavam entregues a uma vida estável, na meia-idade, em seus empregos seguros, lares seguros, famílias constituídas ou em vias de se constituírem, estabilidade e continuísmo social; ainda que a confusão iniciada lá, na década de 1960, esteja presente e vívida vinte anos depois; e a tão pretendida revolução apenas se tornou em nova tradição: egoísta, pragmática, viciosa, cética. Na ânsia de destruir-se o passado construiu-se uma alfurja estereotipada de futilidades (desculpe-me a redundância); e o homem se viu em busca de si mesmo, quando estava irremediavelmente perdido em sua pretensa autossuficiência e ausência de futuro.

Terceiro, após algumas peripécias: um desastre ambiental, controle e manipulação sociais, traições conjugais, experimentos químicos/psíquicos, e críticas desferidas a todos os lados, em especial à vida americana acadêmica e familiar (muitas irônicas, outras ácidas), é possível perceber o quanto o homem moderno está perdido, sem rumo, e ainda tem de conviver diariamente com a ideia da morte, da fragilidade, da impotência diante de algo muito maior que a própria existência. Foi preciso uma catástrofe para a maioria sair do seu “mundinho”, das posições e opções descomplicadas e imediatas para uma realidade inesperada, perturbadora, imperativa, sem escolhas ou declinações.

Quarto, o livro é uma sátira; pode-se considerá-lo, até mesmo, uma paródia. Mas não deixa de ser instigante a maneira como o autor aborda uma série de questões que,  mesmo parecendo apenas “nonsense” e “hiperbólicas”, nos dão a impressão de DeLillo estar a rir de si mesmo e de nós o tempo todo.

Ao chegar no fim — um livro que estava na minha estante havia uns cinco anos, aguardando ser aberto —, posso dizer que a ficção de DeLillo é, no mínimo, provocativa, incitadora. Ainda que ele não apresente nenhuma solução ou coloque todas as “cartas” sobre a mesa (e diga-se, não é necessário), está no rol dos autores capazes de fazerem com que o leitor adentre o texto e se impregne dele; e torna-se cada vez mais raridade em nossos dias, em tempos onde a literatura, de maneira geral, está diluída pela própria incapacidade e acaba por se tornar num arremedo do arremedo do arremedo do…

Certamente é uma leitura que vale a pena, muito a pena. Ainda que você seja assombrado pela ideia da morte… pois ela lhe parecerá ainda mais real e inexpugnável na vida dos personagens de DeLillo.

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Jorge F. Isah

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