Durante as férias, aconteceram dois incidentes deveras estranhos. Num daqueles lugares badalados que todos juram conhecer — mas fico com a pulga atrás da orelha se realmente conhecem ou é apenas delírios dos posers — aventurei-me por uma “picota”. Já na entrada, alguém me abordou. Sem cerimônias, pegou-me o punho e foi amarrando uma fitinha de certo santo. Agradeci, educadamente, me recusei a usá-la, e tomei de volta o meu braço. Ele insistiu, e puxou-me com mais vigor. Eu disse:
— Amigo, não quero usar a fitinha…
Pensei em explicar-lhe os reais motivos, mas não me senti obrigado a fazê-lo
— Por quê?
Falou me encarrando. Os braços cruzados na altura do peito.
— Ora, porque não quero…
Fui o mais gentil, dentro das circunstâncias.
— Isso é um absurdo!
Ele disse, com a fisionomia tão neurastênica que imaginei tratar-se de uma “pegadinha”, de que estivesse zombando da minha cara.
— É o maior insulto que já recebi na vida! — prosseguiu.
Entreolhamo-nos. Eu sem entender a sua reação, e ele sem aceitar a minha decisão. Então, para acabar com o mal-estar, peguei a fitinha, agradeci, coloquei-a no bolso e virei-me para descer a ladeira. Ao notar que não a usaria, puxou-me bruscamente o braço, pela terceira vez:
— Não vai usar a fitinha?
— Não, vou levá-la de lembrança.
— Vai nada!
Arrancou-a dos meus dedos, virou-se para as pessoas ao redor — a rua e calçadas estavam apinhadas de turistas — e disse a plenos pulmões:
— Veja bem, é isso que dá ser gentil com pessoas que mereciam umas boas porradas!
Deixei-o falar, segui à frente e, mesmo alguns metros depois, podia ouvi-lo imprecar e maldiçoar o monstro perverso que eu era.
Mas o dia corria cáustico e suarento, e muito longe de terminar.
Logo adiante, avistei um vendedor de chapéus; havia algum tempo que desejava um. Aproximei-me e apontei o modelo.
— Quanto é esse?
— 90 reais!
Pegou o artigo para colocá-lo em minha cabeça.
— Não, eu não vou querer…
O valor era mais do dobro de outros quiosques.
— Dá pra fazer por 70…
E, de todas as formas, quis encaixá-lo em minha cabeça.
— Amigo, não tem tamanho maior?
— Não, mas ele serve!
E insistia, a despeito da minha cabeçona, em ajustar o apetrecho com o maior dispêndio de força, puxando-o para baixo pelas abas.
— Calma, não está vendo que o chapéu é pequeno demais para a minha cabeça?
— Faço por 50…
— Amigo, nem se for de graça! Não vê que não entra?
Quanto mais eu argumentava, mais ele se impacientava e queria, a todo custo, adequar o atavio ao meu crânio avantajado, dando descontos de 5 em 5 reais… Ainda fiz um esforço, com as próprias mãos, para ele ver a inadequação de se colocar uma melancia em um vidro de azeitonas.
— Viu! Não tem como!
Devolvi-lhe o chapéu e agradeci. Novamente, quis botá-lo. Dei um passo atrás e mantive a distância.
— A menos que tenha uns três ou quatro números maiores, esse aí não serve…
Rumei para o meu caminho, quando ele me peitou:
— É por essas e outras que não gosto de gente folgada!
— Ah?!
Lembrei-me do personagem humorístico — não me recordo o nome —que ao ser confrontado repetia: “Ah, é, é!… Ah, é, é!…” para dias depois sair com uma resposta matadora, mas que de nada lhe servia.
— É isso mesmo, você é um folgado!
Quase fez uma linha no concreto, cuspiu no chão e me chamou a atravessá-la, se fosse homem.
Nisso, minha esposa puxou-me o braço de um lado e minha filha do outro, e arrastaram-me pela rua.
Na pousada, contei a história para um funcionário, e ele segredou:
— Você fez bem em não usar a fitinha, ela é uma espécie de senha para os trombadinhas e larápios saberem que é turista e o enganar…
— E quanto ao vendedor de chapéus? O que tem a dizer?
Ele pensou um pouco. Pôs a mão no queixo. Quase titubeou. Mas, no final, não se calou.
— Para eles, é melhor xingarem suas mães… Posso dar um conselho?
Fiz sinal que sim.
— Se alguém oferecer, pague. Se não pagar, corra o máximo que puder.
Achei que fosse piada, mas ele não riu. Desviou-se para o lado, contando os vouchers da promoção do dia.
Jorge F. Isah