AMOR OU DESAMOR?

Quase todas as músicas românticas que fazem sucesso falam de alguma frustração, de um amor que não deu certo: da noiva que abandonou o altar, do marido que disse que ia comprar cigarros e não voltou, do casal que vive entre tapas e beijos. Falam de traições, de desilusões, de tristeza profunda, de depressão.

As pessoas parecem gostar dessa situação. Talvez porque a maior parte das relações “amorosas” sejam mesmo assim: os apaixonados se identificam com as músicas e querem voltar a sofrer. As pessoas gostam do sofrimento, mais do que amar, não há outra explicação. Uma música que fale da rotina tranquila de uma família bem estruturada, de crianças brincando com o cachorro no quintal, do envelhecimento saudável do casal, seria muito chata e não faria sucesso.

“Nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas, de perto, fomos quase nada, um tipo de amor que não pode dar certo na luz da manhã (…)” foi uma música que esteve nas paradas, na voz esganiçada de Caetano Veloso. Mas podemos citar essa outra, muito mais famosa: “(…) saiba que meu grande amor hoje vai se casar, mandou uma carta pra me avisar, deixou em pedaços o meu coração (…)”, cantada por Reginaldo Rossi, com o seu inconfundível timbre anasalado, para o delírio dos bebuns corneados.

Mas foram os goianos que se especializaram no assunto. Existem ao menos 283 mil duplas sertanejas goianas especializados em “dor de corno”, e despejam suas lamentações pelas rádios e streamers, e deveriam ter sido eles os inventores do ritmo “sofrência”, mas ouvi dizer que foram os baianos.

Acho que já contei esse caso antes, mas nunca me esqueci do dia em que estava em um bar com amigos, após a apresentação de uma peça teatral, e devia passar das 2 da madrugada, quando chegou um homem extremamente magro, de 2 metros de altura ou mais, vestindo um terno verde muito largo, com listras verticais pretas, camisa preta, gravata verde e um boné do América Futebol Clube. Ele ficou mudo por instantes, parado em frente à nossa mesa até que um dos nossos o convidou a sentar-se. Logo ele começou a contar sobre o seu caso de amor (ou desamor), acerca da mulher que o havia abandonado por outro, um caixeiro viajante.

– Eu amo aquela desgraçada – ele disse, chorando como uma criança.

“É o amor”, como diria a letra da música de Zezé di Camargo e Luciano.

Michel Salomão

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados