Em terra de capado, QUEM TEM UM BAGO É REI

Ninguém seria capaz de entender como podia um único homem decidir sozinho o que era o certo ou o errado para o povo daquele país, passando por cima de leis e códigos, contrariando o próprio Rei, que fora coroado exatamente para exercer o papel de soberano.

Até então não havia um só homem capaz de chegar frente a frente com ele e falar: “não vou fazer, é ilegal, vá se lascar”. Todos morriam de medo dele.

Nunca se soube ao certo quando foi que começou a exercer o seu poder absoluto, mas a uma certa altura já havia mandado prender, torturar e matar, não antes de retirar todos os meios de subsistência das vítimas e de suas famílias, determinando o confisco de imóveis, terras, automóveis, contas bancárias, salários e até as roupas do corpo dos infelizes, que ainda eram obrigados a pedir perdão, para, ao final, serem executados.

O chefe da guarda obedecia passivamente tudo o que lhe era enviado em bilhetes mal redigidos, sendo obrigado a interpretar e executar as ordens mais controversas, correndo o risco de cometer falhas, como na ocasião em que era para torturar e matar um condenado, e fez o contrário: primeiro matou, colocando em prejuízo a segunda etapa, o que deixou a autoridade furiosa, pois havia perdido a oportunidade de assistir o vídeo mais tarde em sua mansão, enquanto tomaria um Romanée Conti 1945.

Um belo dia chegou na cidade, vinda de um país distante, uma mulher relativamente transformada, para quem não sabe, uma espécie que aparenta ser o que é e o que não é, mantendo em si uma característica que a faz diferente, uma “surpresinha” muito apreciada por alguns homens extremamente poderosos, já tendo atendido reis, imperadores, presidentes, 1º ministros e papas, e assim foi marcado um encontro com o temido algoz.

As luzes amarelas do palácio (que era maior e mais luxuoso do que o do Rei) estavam acesas apenas nos rodapés, pois ele gostava da penumbra, enquanto nas dezenas de caixas acústicas espalhadas pelos ambientes tocava “Piano Trio nº 2, Op.100”, de Franz Schubert.

O encontro não durou mais de 10 segundos: assim que se aproximou da autoridade absoluta, ela levou a mão lá embaixo, agarrou e apertou furiosamente um pequeno volume que encontrou dentro das calças, que imaginou seriam dois, o torceu e o arrancou. A cena foi tão inesperada que o ditador só teve tempo de correr para o hospital, sem se lembrar de mandar prender a agressora, que evadiu-se misteriosamente, e lá conseguiram estancar o sangramento.

A partir daí, passou a falar finininho e as pessoas deixaram de obedecê-lo, logo caindo em desgraça. Não demorou muito tempo e foi preso e esquecido em uma cela que compartilhava com cachorros sarnentos, no subsolo de uma fábrica de esterco. E assim o povo se viu livre daquele terrível personagem, quando o Rei passou a exercer ele mesmo o seu poder tirânico, até então impedido por aquela abominável autoridade.

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