Quem não gosta de uma boa história? As crianças são exemplos clássicos de amantes de histórias, mas, na verdade, se prestarmos atenção, perceberemos com quanta frequência entretecemos histórias nas nossas conversas. Causos, experiências de vida, narrações imediatamente cativam a atenção do ouvinte. A própria vida é uma sequência de histórias, e quando as contamos para os outros, ou inclusive para nós mesmos, estamos nos definindo como pessoas.
Chegar a escrever uma autobiografia parece exclusividade de quem tem algum acontecimento marcante na vida para contar. Porém, é um exercício saudável e mais valioso do que se possa imaginar. Ao refletir sobre a própria história de vida, fatos engolidos pelo dia a dia são ressignificados. Escrever é em si um ato de selecionar e organizar pensamentos.
Nesse sentido, um diário é um excelente ponto de partida, porque nele gravamos impressões e emoções em “doses homeopáticas”. Com o tempo, os registros se somam para compor um repositório de memórias com valor afetivo. Eu mesma tive essa experiência durante um ano que passei no exterior. De tempos em tempos, sentada à beira de uma janela, comecei a fazer anotações no bloco de notas do celular, que se transformaram em uma narrativa das minhas amizades, saudades e experiências. De vez em quando revisito esses registros e me impressiono com a profundidade do que escrevi, algo que de outro modo teria se diluído na memória.
Além disso, o tempo desacelera quando paramos para lembrar de algo e revivê-lo. Quando não lembramos nem do que comemos ontem, os dias parecem todos iguais, as semanas passam depressa e os anos voam. É um bom exercício dedicar alguns momentos a cada dia para repassar como foi aquele dia, porque colocar lembranças em ordem cronológica traz a sensação de que a vida tem uma linha do tempo.
Não por último, padrões formados na mente acabam por se traduzir em atitudes. Dar valor ao que passou faz com que se viva o hoje com uma consciência mais aguçada. Os momentos não voltam, mas as lembranças ficam. Creio que essa consciência nos faz sermos mais generosos com o amor e a presença, pois são esses os ingredientes de uma vida vivida intensamente.
O tema desta reflexão foi que a identidade é construída por meio de histórias. O tempo corre na mesma velocidade para todos; as memórias que temos dele, cabe a nós decidir. Encerro, então, com uma metáfora de livro… a vida é feita para ser apreciada como um romance, não folheada como uma lista telefônica.
Debora Rempel