O lado B de São Paulo

Semana passada, recebi a visita do meu irmão, cunhada e sobrinho, que moram no sul de Minas. Ele chegou bem alquebrado, com dores nas pernas, arrastando-se e sem fôlego. Mas alguém — filho feio não tem pai — sugeriu ir à Liberdade, e não houve quem desistisse além de mim.

Fomos lá.

O trânsito caótico, como rezam as planilhas de monitoramento da Secretaria de Transportes, e achar um lugar para estacionar sem ser extorquido pelos cinquenta reais por três horas era quase impossível. Dois quilômetros depois, lá estava a vaga, em uma ladeira suja.

Mas isso era o começo.

Subimos, descemos, e tivemos de parar várias vezes para o meu irmão “puxar um ar”, entre ambulantes, transeuntes, trombadinhas e um empurra-empurra digno de liquidação de supermercado.

No final da tarde, nossas esposas e o sobrinho se enfiaram em galerias, barracas e tudo quanto é lugar onde alguma tranqueira era vendida, para levarem apenas uma caixa de doce de feijão e uma lata de sushi.

À noite, dormi entre o ressonar da mulher e o ronco do meu irmão no andar de baixo.

No domingo, nova surpresa: Avenida Paulista.

Pensei com os meus botões: “O que fiz pra merecer isso?”

Mas fomos lá. E não é que me diverti?

Aquilo era um circo a céu aberto, com todo o tipo de fauna — e não me refiro apenas aos desfiles de pets — exibições e bizarrices. Tinha de tudo um pouco. E para todos os gostos. De fato, foi divertido, e grátis.

O melhor, porém, foi a recuperação do meu irmão. Longe da muvuca da Liberdade e no meio das atrações na Paulista, ele caminhou, dançou, quase deu mortais e se tornou também um espetáculo. Foi muito bom ver a sua melhora. O que me fez repensar sobre São Paulo…

A cidade tinha lá os seus encantos, capaz de expurgar até mesmo a minha rabugice.

                                                     Jorge F. Isah

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