As notas pareciam enormes em minhas mãos. Gostava de vê-las, tê-las, principalmente tê-las. Costumava trocar as notas de maior valor por várias; gostava da ideia de quantidade, de volume. Fazia-me bem, sentia-me homem. Homem feito.
Ocorreu de verdade quando me aventurei a vender chup-chup. Tinha uma caixa de uns três litros, novinha, doada pelo meu irmão. Até cheirava.
Minha mãe os fazia e eu saía pelo mundo gritando meu produto. Meu mundo não era muito grande: poucas ruas, um supermercado e a porta de uma escola.
Aprendi, ainda novo, a me acostumar com o capitalismo, o lucro, o capital e, por consequência, a voracidade do consumismo. Meu dinheiro era juntado para comprar meias escolares, cadernos, camiseta de educação física e meu primeiro Kichute. Eu ia feliz para a escola, uma felicidade contida na possibilidade de ir conquistando meu espaço. Tinha dinheiro para merendar; isso, para mim, era motivo de orgulho.
Minha mãe cortava nosso cabelo, meu e do meu irmão, deixando apenas um topete na frente; chamavam de “Tiro de Guerra”. A gente tomava cascudos dos meninos maiores.
Uma vez, no supermercado, um rapaz comprou cinco chup-chups; começou a me dar uma angústia e o temor de que eu não iria receber. Ele era maior, muito maior, e, nessa situação, temos que ser o mais humilde possível. Ele disse que não me pagaria e que, se eu cobrasse, me daria um cascudo. O corte de cabelo sugeria isso.
As lágrimas umedeciam meus olhos. Pensava na minha mãe enchendo os saquinhos, no short de educação física que sonhava em ter. Era um desaforo. O rapaz trabalhava como carregador de compras no supermercado e, então, recorri ao gerente, que prontamente me atendeu. Recebi meu dinheiro; não tive ânimo para trabalhar, e as lágrimas ainda insistiam em fazer brilhar meus olhos. Nesse dia, a noite desceu mais cedo para mim. Foi então que percebi, aos dez anos, que tudo aquilo que ocorrera foi meu primeiro desafio profissional e minha primeira conquista como cidadão.
Geraldo Hera