ELE & ELA: antídoto para um série ruim – série Netflix

Este mês, motivado pela ausência da minha esposa, pois estava a visitar seus parentes em B.H., resolvi assistir a uma das novas séries da Netflix — não sei se nova para a grade ou apenas para mim, já que raramente me arrisco a séries atuais, salvo indicação de amigos confiáveis. Sim, sou arredio com as novidades por vários motivos. E podem me chamar de velho e antiquado, porque não estou nem aí, e não faço qualquer questão de ser moderninho ou descolado — e, digamos, me surpreendi.

A princípio, chamou-me a atenção a presença de Jon Bernthal, ator acima da média. Esse foi o principal chamariz. E, também a possibilidade de não me ver maratonando por horas a fio, algo que não tenho me entregado desde que descobri “Downton Abbey”— talvez seja o maior estímulo: uma minissérie em seis capítulos.

A história não tem nada de novo: um crime, seguido de outro crime, e outro, um detetive que era amante da primeira assassinada, um casal em crise, amizades tóxicas, garotas perversas, hipocrisia, etc, etc, e toda aquela lenga-lenga da qual já estamos acostumados.

As pistas, inicialmente, se voltam para Anna — interpretada pela mediana para baixo, Tessa Thompson — esposa do detetive Jack Harper — Bernthal —, que também é um dos primeiros suspeitos. O roteiro privilegia os clichês, não tem personagens profundos e bem caracterizados, muitas cenas soam artificiais ou incoerentes — como as de Harper soltando provas para todos os lados, enquanto realiza inquéritos nos balcões de bares e estacionamentos — mas a direção consegue manter o clima de suspense e a produção não precisou criar nada mirabolante para suster a atenção.

Harper é o marido traído, com o casamento destruído pela morte da filha recém-nascida, mora com a irmã alcoólatra e tem uma sobrinha pequena. Quer mais?… Anna é uma jornalista que perdeu o cargo de âncora na TV, pelo sumiço de um ano sem deixar rastros, após a morte da bebê. Mesmo assim, é admitida na emissora e começa a trabalhar no caso dos assassinatos imediatamente, protegida do chefão Jim Pruss, personagem criado apenas para respaldar a nova ascensão na carreira de Anna.

Como em todo suspense policial, as pistas apontam ora para um, ora para outro, ora para aquele, e, sabemos, no fim, haverá uma reviravolta e aquele personagem que ninguém imagina é o verdadeiro criminoso. Tudo se encaminha para Catherine, mas quando o desfecho acontece e percebe-se que ainda faltam quase trinta minutos da série, a pergunta vem: qual será a surpresa mirabolante para enganar o espectador?

Nos livros e na dramaturgia, salvo raras exceções, as pistas levam quase inevitavelmente ao algoz e, no final, temos confirmada a autoria.

Bons escritores e dramaturgos não estão preocupados com “final apocalíptico”, mas com o enredo, em produzir bons personagens, em desenvolver a trama de tal maneira que ela sustente o livro ou peça, sem precisar de malabarismos e invenções. Não sei quando as coisas mudaram e a necessidade de uma reviravolta épica — na maioria das vezes sem sentido, como a explosão do carrinho de cachorro-quente no parque de diversões espalhar pétalas e balõezinhos coloridos ao invés de salsicha e molho de tomate.

Aqui, a despeito de haver alguns bons atores — Bernthal, Crystal R. Fox, Marin Ireland — o roteiro é tão pobre e a caracterização tão superficial que escorregam, e o chão é o lugar de todos. Tentarei não dar spoiler, mas não sei se conseguirei.

Alice, uma anciã com Alzheimer, aparece secundariamente na história. Aquele drama pessoal e familiar da protagonista, Anna, que, contudo, não a impede de negligenciá-lo, preocupada com a carreira e as disputas internas no trabalho. Em momento algum, existe empatia entre mãe e filha, e a importância da relação se dá apenas pelas sequelas do passado.

Como disse, lá em cima, os clichês são abundantes. E o fim é o ápice deles. De uma inverossimilhança patética e irrealizável, com justificativas saídas da boca de um infante assustado com a história do “Chapeuzinho Vermelho” — escrita por Perrault e não a versão dos Irmãos Grimm — e que decidiu estragá-la completamente.

Lembrou-me, um pouco, Tarantino, “o rei da vingança” — mas com talento — onde nada importa, apenas pagar com a mesma moeda, se possível, com juros. E os laços entre mãe e filha se reatam ou se amarram em um final feliz, sorridente, sem culpas ou desculpas.

Talvez, esteja se perguntando: “por que raios, no início, você se surpreendeu?”

Vou lhe dizer claramente: percebi o quanto a minha esposa faz falta. Peguei o telefone, liguei para ela, e ordenei o seu retorno imediato, ou faria uma besteira. Quando ela me perguntou qual besteira, disse que, além de cancelar a assinatura da Netflix, iria desaparafusar a TV da parede e jogá-la no lixo.

No dia seguinte, estávamos juntos, e assistimos “Ele & Ela”. E não é que gostei?

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