ENTREVISTA – Manequim de Vitrine

Difícil definir se o(a) nosso(a) entrevistado(a) é “ele” ou “ela”, pois ambos são desprovidos de órgãos sexuais. Aparenta ser uma personagem do universo feminino, pois utiliza uma longa peruca loura e possui, na parte superior frontal do tórax, protuberâncias semelhantes a seios — mas isso as famosas “mulheres de pipiu” também têm. De qualquer maneira, resolvemos utilizar com ela o artigo feminino “a”, considerando que o termo “manequim” é genérico e ela não reclamou. Esperamos não ser posteriormente processados, como normalmente ocorre com elementos de tendência progressista, que se julgam ultrajados por qualquer ação ou inação e não se cansam de judicializar as questões. Mas vamos à entrevista.

BULUNGA – Vamos direto ao ponto: o que a diferencia dessas modelos internacionais?

MANEQUIM – Elas sofrem de flatulência severa. Eu não.

BULUNGA – Além dessa, você consegue apontar outra característica?

MANEQUIM – Elas quase não comem. Eu nunca como.

BULUNGA – E você não tem cérebro…

MANEQUIM – A maioria delas também não.

BULUNGA – Mas você não se incomoda em ser constantemente manipulada, de escolherem o que vai vestir ou como vai se posicionar? Às vezes é deixada totalmente nua, jogada em um canto, até que resolvem fazer a renovação do estoque de acordo com a estação. Não acha isso ultrajante?

MANEQUIM – Já me acostumei. Além do mais, em regimes socialistas é assim que fazem com o povo e ninguém reage.

BULUNGA – Não reagem porque são severamente oprimidos…

MANEQUIM – Já eu não falo porque a minha boca não se abre. Até gostaria de falar, mas não consigo.

BULUNGA – Mas e esta entrevista? Como estamos nos comunicando?

MANEQUIM – Telepatia. Nem todos são capazes de captar os nossos pensamentos. Apenas as mentes mais simplórias e pouco evoluídas conseguem. Parece que a inteligência racional cria uma barreira contra as ondas telepáticas.

BULUNGA – Está me chamando de burro?

MANEQUIM – Muitas pessoas são mais burras do que um burro.

BULUNGA – Está falando de mim?

MANEQUIM – Uma coisa me intriga: por que as pessoas mais idiotas são tão questionadoras? Não param de fazer perguntas.

BULUNGA – Você acha?

MANEQUIM – Não falei?

BULUNGA – Será uma indireta?

MANEQUIM – Vamos mudar de assunto. Não vai perguntar como faço para urinar e defecar, considerando que fico o tempo todo parada na vitrine?

BULUNGA – Ah, sim, eu ia mesmo perguntar…

MANEQUIM – Eu não faço a ingestão de alimentos sólidos ou líquidos, sua toupeira almiscarada!

BULUNGA – Espere aí: ninguém nunca me chamou de toupeira… e muito menos almiscarada. Qual o grau de ofensividade que isso implica?

MANEQUIM – Não deveria se ofender: esse é o meu jeito carinhoso de dizer que gosto de você.

BULUNGA – Então tá bom… também gosto de você. Parece que rolou uma química entre nós…

MANEQUIM – Já ouvi essa frase antes…

BULUNGA – As pessoas não sabem que você pode escutar as conversas delas na frente da loja. Sobre o que elas falam? Quais são seus sonhos?

MANEQUIM – Futilidades. Querem ser magras e elegantes como eu, mesmo que para isso tenham que se tornar um objeto de decoração. Aliás, muitas já funcionam como objetos, porém sem a mesma utilidade de um manequim, pois são ignorados por parentes, colegas, amigos e vizinhos. Algumas pessoas não representam o menor valor na sociedade em que vivem. Por isso se deprimem. Por isso querem se matar por qualquer motivo besta.

BULUNGA – Existe até um livro que fala sobre isso: “Manual para os Desesperados”. Está à venda na Amazon.

MANEQUIM – Conheço. Mas não é um livro sério. O autor satiriza a si próprio. Vale apenas para dar umas poucas risadas desse tema tão perturbador.

MANEQUIM – De que adianta ter um coração pulsando no peito e não conseguir amar a si mesmo? E muito menos ao próximo.

BULUNGA – Dá para perceber que você conhece a Bíblia. Já leu?

MANEQUIM – Durante muito tempo, no imóvel ao lado, funcionava uma igreja evangélica. Eu escutava todos os cultos, diariamente. O problema é que eles gritavam muito e pediam dinheiro sem parar. Também falavam mais do diabo do que de Deus. Mas descobriram que o pastor estava envolvido em um esquema de pirâmide, com conexões com um resort de luxo e lavagem de dinheiro do crime organizado, acobertado por altas autoridades e um escritório de advocacia. Acabou fechando. Agora lá funciona uma casa de “massagens”, se é que me entende…

BULUNGA – Sim, massagens. Com surpresinha no final.

MANEQUIM – É isso aí! Gostei de ver: você entende dessas malandragens.

BULUNGA – Afinal, Bulunga também é cultura.

MANEQUIM – “Bulunga – A Revista que Ninguém Lê”. Vocês não se cansam? Não é frustrante ter todo esse trabalho por nada?

BULUNGA – Ah, uma hora a gente deslancha. Mesmo

que postumamente.

MANEQUIM – Você peca pelo excesso de otimismo. Se estivessem nos Estados Unidos, na Alemanha ou mesmo na Austrália, fariam sucesso, porque lá eles adoram essas besteiras. Mas o brasileiro médio odeia ler. Tentem outra coisa. Abram uma pequena loja de temakis.

BULUNGA – Não temos talento para isso.

MANEQUIM – Para serem jornalistas e escritores, também não.

BULUNGA – Obrigado pelo elogio!

MANEQUIM – Hoje é de graça.

BULUNGA – Você não se sente frustrada por não ser uma Gisele Bündchen?

MANEQUIM – De jeito nenhum. Ela só tem cabelos e nariz. E anda meio desajeitada.

BULUNGA – Eu teria observado alguma pontinha de inveja nessa fala?

MANEQUIM – Inveja? Eu? Essa mulherada toda envelhece rápido e fica louca. Começam a colocar botox e outras porcarias no rosto e no corpo e viram monstros. Eu sempre serei a mesma.

BULUNGA – Mas você já começa a apresentar sinais de desgaste. Está descascando em vários pontos.

MANEQUIM – É só pintar. E trocar a peruca. Muito simples.

BULUNGA – Algum maluco já tentou fazer “bobiça” com você?

MANEQUIM – Mais de uma vez. Mas não se deram bem: sou feita de fibra de vidro e posso decepar o bilau de quem tentar. Quer experimentar?

BULUNGA – Não, obrigado! Não sou chegado em perversões. Sou do tipo mais “conservador”.

MANEQUIM – Como tem coragem de falar isso em público? Vai atrair a fúria dos esquerdistas. Vão acusá-lo de propagar valores como família, amor, religião, trabalho, prosperidade. Isso é tudo o que eles mais odeiam.

BULUNGA – Acho melhor suprimir essa parte… ou não: ninguém vai ler isso mesmo!

MANEQUIM – Vocês, da Revista Bulunga, tem muita sorte!

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