UMA NÃO-ALEGORIA

Era uma vez o “País das Maravilhas”. Nele, havia a escola “Felicidade para Todos”. Na entrada havia um grande outdoor: “Aqui você é feliz!”. Todos acreditavam, porque as letras grandes e as cores tomadas do arco-íris eram bonitas.

A escola era modelo, e ali as crianças tinham liberdade para ser o que quisessem.

Certa manhã, Sol da Noite perguntou ao pai:

— Papai, posso ser o que quiser?

Pensou ser algo relacionado a uma profissão no futuro.

— Claro, filha.

— O que eu quiser mesmo?

— Sim. Já lhe disse que você pode.

— Então, quero ser um pardal.

Ele ergueu os olhos. Pardal?… Indeciso, respondeu:

— Bem, se é o que você quer…

— Quero, muito.

E saiu agitando os braços como em um voo desengonçado.

O pai não chegou a ver isso, pois voltou para o celular.

Quando Sol da Noite chegou à escola, foi avisando a professora:

— Fessora, sou um pardal, e quero ficar naquela árvore cantando.

Apontou para a jaqueira no estacionamento.

— Mas você não pode subir naquela árvore, pardalzinho! Ela é muito alta…

Sol da Noite não se conteve e esperneou.

— Meu pai disse que posso.

Nisso, Ewani se levantou:

— Sou uma árvore!

E colou-se na parede lateral, com os braços abertos.

— Posso subir nela, posso!

Sol da Noite puxou o uniforme da mestra, e não se conteve de alegria.

— Ah, pode…

Com a ajuda de Gadu, um guindaste, Sol da Noite subiu nos galhos de Ewani e começou a assobiar: piu, piu… piu, piu.

Joãozinho gritou do fundo:

— Sol, pardal não pia. Quem pia é pinto.

A professora interveio.

— Joãozinho, se ela é um pardal que pia, o que você tem com isso?

Se conteve.

— Nada.

Foi quando teve a ideia.

A professora deu as costas à cata de alguns brinquedos, ouviu gritos e baques seguidos de alvoroço.

— O que é isso?

Joãozinho, de pé, impassível. Ewani, no chão, esfregava a perna. Sol da Noite, a cabeça.

— O que você fez?

A professora segurou o braço do menino e exigiu explicações.

— Uai! Eu só cortei a árvore…

Como um bom machado.

Jorge F. Isah

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