Mineiros como eram… e COMO SÃO

Sempre se ouve falar bem das mineirices, pelo menos pelo seu lado mais pitoresco e positivo. O mineiro é reservado, desconfiado, de poucas palavras com desconhecidos e naturalmente introspectivo, o que no frigir dos ovos parece ser que, tais mineiros, sejam pessoas sempre boas e incapazes de fazer qualquer mal a si mesmos ou a outrem.

O que lhes conto a seguir não é algo que eu tenha visto, mas ouvi de uma outra pessoa, a partir de seus parentes e da sua região de origem. Trata-se de um lado pouco ou nada conhecido — ou pior, oculto e negado. Não os vemos na dramaturgia televisiva e nem na nova literatura “pregada” às crianças.

Mas vamos à história.

Em certa região interiorana de Minas, bem raiz, havia um fazendeiro reconhecido como o “figurão” da região, um tipo de “Coroner”, rico e valentão, a manifestar um amor platônico por uma certa moça; que, claro, não aceitava suas investidas. Então, ele simplesmente criou para si, e para os outros, um plano: escolher uma vítima.

Explico: selecionou um rapaz vistoso que conhecia a tal moça, e diante das pessoas criou um falso “entrevero”.

Havia um campo de futebol em um terreno próximo ao vilarejo, em que todos os homens acorriam no final de semana. Cada um com o seu cavalo, o amarrava em pés de eucaliptos à margem do campo, parcialmente gramado e parcialmente em terra batida. Vinham todos de um lado, atravessavam o campo improvisado e os largavam entre as árvores.

Era comum, um ou outro animal, deixar fezes esverdeadas e redondas em meio a grama ou terra. Às vezes, catava-se, em outras, eram esquecidas e pisoteadas pelos jogadores enquanto a bola tentava se desvencilhar dos estercos, mas sem muito sucesso: era inevitável manchar e deixar-se impregnar do fedor característico de bosta.

Certo dia, o tal “Coroner”, ignorado pela beldade, cismou de escolher o rapaz como um dos elementos do triangulo amoroso imaginário, e levou o esquema a público.

Após cruzar o campo em seu cavalo e parar diante de todos, apeou do belo e formoso animal, se pôs de pé diante do vistoso rapaz e disse:

— Eu te vi proseando com a Rosa, e para você não esquecer e nunca mais ficar de gracinha com ela, tome isto! 

Sacando do chicote de três pontas, deu uma surra no pobre rapaz que, sentado como estava, pouco pode fazer para se livrar dos golpes do valentão. Como era o bambambã do lugar, ninguém interveio. Todos assistiram impávidos e passivos. Ninguém disse um ai!… Afinal, as terras arrendadas, os trabalhos na roça, a subsistência das famílias, dependiam diretamente da submissão e concordância com o patrão, fosse o que fosse.

Humilhado, ferido no corpo e na alma, o pobre rapaz saiu, sem ter chance de jogar ou torcer, ou de qualquer outra diversão.

Entretanto, isso não aconteceu só uma única vez, como se o caso houvesse sido resolvido de alguma maneira.

Passado um bom tempo, cena semelhante e pública se repetiu, e outra vez ainda pôde-se ouvir a acusação:

— Eu te vi conversando com a Rosa.

E tome lambadas!

Indignado com as acusações e surras, na cozinha da casa da mãe, esbravejou, decidido:

— Mãe, vou comprar um revólver e matar o “seu” Jerônimo. Ele nunca mais vai me surrar na frente dos “outro”. Ele vai ver só! Eu juro mãe, que mato ele!

Dito e feito.

Comprou o revólver, e onde estivesse se resguardava de eventuais surpresas, mais observando do que sendo observado.

Certo dia, sentado à porta de casa, viu ao longe o fazendeiro vindo em seu garboso cavalo, diretamente em sua direção. Não se assustou, ou fez qualquer movimento. Com o cigarro de palha à boca e o chapéu arreado na testa, do jeito que estava, ficou.

O valentão parou o cavalo bem à sua frente, apeou rapidamente, e pegou chicote de três pontas, na direção do rapaz. Este, a quem dou o nome de “Zé”, puxou a arma de dentro da calça e disparou um único tiro na cabeça do agressor. Em seguida, se enfiou no mato, que conhecia como a palma da mão, deixando o corpo do seu Jerônimo esticado e morto no chão.

Vale dizer sobre a premeditação e cuidado nessa vingança, ou da legítima defesa: durante muito tempo, o Zé treinou atirando em mangas no pé, até que se esmerou em derrubar as frutas, não acertando os frutos, mas derrubando-as pelos talos.

O Zé se refugiou na casa de um tio, em outra cidade. Após dias, foi finalmente achado, deitado, refestelando-se em uma rede. A casa do tio era em um vale. A dupla de policiais, após deixar o Fusca em uma colina, desceu a pé o lugar. Ao encontrá-los, o tio disse:

— Ele matou o safado, mas não está fugindo; ele está pronto para ser preso. Aqui está a arma, e ele já vai com os senhores, sem problema. Fez, tem que pagar, mas o caso é público, toda a cidade sabe como meu sobrinho foi humilhado e surrado, e por causa da imaginação do “seu” Jerônimo.

      Pigarreou, antes de continuar.

— Mas façamos isto: vocês vieram de longe para prender o meu sobrinho. Mas tá na hora do “armoço”. “Desalgema” ele, todo mundo “armoçá”, e depois ele vai com os senhores.

Todos almoçaram, o tio, o Zé, a tia, a dupla de policiais, acenderam um bom cigarro de palha — apreciados por todos, menos a tia, que preferia o pequeno cachimbo — prosearam, falaram de pescarias, gado, potros ariscos, histórias antigas.

O desfecho da “estória”: menos de seis meses depois, por ser primário, os fatos serem públicos, e as muitas testemunhas a favor do Zé, diante das surras e provocações injustas, eis o rapaz livre, leve e solto.

Um causo desconhecido, inusitado, e que a partir de agora será disputado pela Amazon e Netflix.

Helvécio S. Pereira

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