Bukowski não é um exemplo de vida a ser seguido, mas a sua literatura não pode ser desprezada, principalmente pelo fascínio que ainda hoje causa em tantos admiradores espalhados pelo mundo, aqueles que conseguem descobrir uma sensibilidade nativa por baixo da carcaça daquele cara durão.
Nascido Henry Charles Bukowski, em Andernach, Alemanha, em 16 de agosto de 1920, veio para os EUA aos 3 anos de idade e sofreu muito na adolescência, por conta da rejeição relacionada a problemas com uma acne severa, que dominou todo o seu rosto e o obrigou a submeter-se a tratamentos médicos, como consequência, o isolamento dos colegas da escola e, principalmente, do sexo oposto, por se achar muito feio (ele estava certo).
Mas não foi só isso: para piorar, sofreu abusos físicos e psicológicos do pai, um soldado extremamente autoritário e violento, em um período marcado pelas guerras mundiais, o que levou muitos jovens daquela época, principalmente dos EUA, a largarem os valores da sociedade para se tornarem vagabundos e alcoólatras.
Sofreu sucessivas derrotas em sua vida, muitas delas em razão de seus hábitos antissociais, de sua aparência desleixada, de sua preguiça, de sua irresponsabilidade, de sua instabilidade emocional, das bebedeiras, do vício em corridas de cavalo e pelo seu envolvimento com a escória da sociedade.
Aos 19 anos começou a escrever alucinadamente, ocasião em que foi expulso de casa e passou a morar em pensões decadentes e a trabalhar em empregos temporários, em diversas cidades americanas, como faxineiro, frentista, motorista de caminhão e, finamente, como funcionário dos correios, profissão que exerceu por mais tempo.
Sua primeira oportunidade veio ao final dos anos 1960, quando foi convidado a publicar os seus trabalhos na editora Black Sparrow Press, e a partir daí passou a fazer algum sucesso com seus contos, romances e poemas. Durante muitos anos, as suas crônicas intituladas “Notas de um Velho Safado” fizeram o maior sucesso entre um grupo de admiradores fiéis, passando a ser frequentemente convidado para sessões de leituras de seus poemas, muitas delas interrompidas ou mesmo canceladas por conta de suas bebedeiras.
Criou o personagem Henry Chinaski para fazer uma autobiografia de sua vida conturbada, tendo sido alguns de seus trabalhos adaptados para o cinema, como Crônica de um Amor Louco (1981), Barfly (1987) e Factotum (2007).
Bukowski não gostava de gente. Ou melhor, gostava, mas não por muito tempo. Para ele as pessoas eram perigosas, porque podiam descobrir a verdadeira identidade do ser humano sensível que foi surrado pela vida, mascarado por aquele seu jeito rude, e por isso retirava os filtros que garantem as aparências das relações sociais.
Ele era amado e odiado pela sua literatura, mas geralmente os que criticavam negativamente as suas obras não a liam por inteiro, mas apenas algumas de suas citações. Na verdade, essa relação de amor e ódio marcou a sua relação com os demais seres humanos, principalmente as mulheres, talvez pelos sentimentos não correspondidos, nas piores fases de sua vida, o que transformou os seus trabalhos em um material extremamente denso, palpável, contundente, com a sua narrativa sincera, sem rodeios e pudores. Ele escrevia o que vivia, apenas isso, fazendo com que o seu leitor crie uma identificação com a sua realidade entediante, sem as fantasias presentes nas obras dos escritores comuns. Bukowski era diferente.
Passou a maior parte de sua vida em Los Angeles, Califórnia, que amava e odiava com a mesma intensidade. Ainda na adolescência descobriu o álcool e a literatura como uma forma de diminuir a pressão que sofria.
Frequentava o mundo de Bukowski a base mais vil da sociedade: bêbados, drogados, prostitutas, presidiários, loucos, viciados em jogos, pervertidos de toda espécie, mas ele conseguiu descortinar um certo lirismo dessa experiência, com o seu característico humor pessimista, mas poucos são os leitores que conseguem perceber o tom satírico de sua narrativa.
Sofreu fortes influências de John Fante, Henry Miller, Jack Kerouac, Dostoiéviski, Hemingway, Celine, entre outros. Mas só veio conhecer o sucesso tardiamente, passando a ver a cor do dinheiro, com o correspondente conforto que ele oferece, após os 60 anos, apesar de já colecionar fãs ao redor do mundo.
Entre as suas mais contundentes obras podemos destacar Fabulário Geral do Delíro Cotidiano, Crônicas de um Amor Louco, Factotum e Mulheres, mas tem ainda Cartas na Rua, Misto Quente, Hollywood, Notas de Um Velho Safado, Numa Fria, O Amor é um Cão dos Diabos, Ao Sul de Lugar Nenhum e, principalmente, Pulp, o seu último livro, para muitos o melhor. Mas existem diversos outros, principalmente de poemas, alguns publicados postumamente, aproveitando o sucesso de suas vendas.
Bukowski morreu em 9 de março de 1994, aos 73 anos.
VEJAMOS AQUI ALGUMAS FRASES E TRECHOS DE OBRAS DE BUKOWSKI
“O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece”.
“É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa”.
A diferença entre uma democracia e uma ditadura consiste em que numa democracia se pode votar antes de obedecer às ordens.
Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade.
Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.
Definição de bom bairro: lugar onde a gente não tem condições econômicas para morar.
A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável.
Um intelectual é um homem que diz uma coisa simples de uma maneira difícil; um artista é um homem que diz uma coisa difícil de uma maneira simples.
Às vezes, me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há uma câmera. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um filme ruim.
Encontre o que você ama, que isso o matará.
Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema.
Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz.
E eu não estou lá. Muito estranho. Penso
no caminhão do lixo passando e levando o lixo
e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível.
E pior, algum tempo depois de estar morto, vou
ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou me odiavam
vão subitamente me aceitar. Minhas palavras
estarão em todos os lugares. Vão se formar
clubes e sociedades. Será nojento.
Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso e talentoso do que
sou. Muito mais. Será suficiente para fazer
os deuses vomitarem. A raça humana exagera
em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.
Confissão
À espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama
Sinto terrivelmente por
minha esposa
Ela verá este
corpo
duro e
branco
Vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:
“Hank!”
Hank não
responderá.
Não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.
Quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado
Que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas
E que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
Eu te
amo.
Charles Bukowski