O nome dele era Romão, nome de velho, mas ele não devia ter mais de 25 anos, e foi um nome muito usado nos anos 40 ou 50, apesar de ele ter nascido no final dos anos 90, e não se soube se os pais decidiram homenagear algum parente ou amigo homônimo, cujo significado é “cidadão de Roma” ou “representante”; porém, isso não vem ao caso: o cara era mirrado, franjinha colada na testa, dentuço, orelhas grandes, feio de doer, bem diferente da imagem que faríamos de um gladiador romano. Dono de uma autoestima fabulosa, se arriscava com as mulheres mais bonitas do bairro, sem se importar com o risco de sofrer um processo por assédio, porque hoje em dia homem não pode elogiar mulher. Passar uma “cantada”, então, é impensável, e por isso eles acabam se ajeitando com outros homens.
Juliana era uma morena grande, voluptuosa, com curvas bem delineadas por arquiteto habilidoso, um cabelão preto escorrido, tratado com muito dinheiro em salão de beleza, mas ela não era de conversa fácil: passava com passos rápidos na frente do bar onde o Romão tinha sua cadeira cativa na porta, com o seu inseparável palito entre os dentes, camisa florida aberta, bermuda jeans aproveitada de uma calça que havia rasgado no joelho, e chinelo de dedo nos pés.
Estava ciente de que a garota era “muita areia para o seu caminhãozinho”, mas seguindo os ensinamentos de seu mestre Gentil (esse é um nome), sempre dizia que não tinha problema, pois “poderia fazer várias viagens”.
Numa tarde como aquela, com a temperatura não passando dos 21 graus, a morena Juliana passou em frente ao bar, voltando do trabalho que ficava logo ali, um escritório de advocacia onde era a recepcionista, e caminhava a pé em direção à sua casa, que ficava no final da rua. Romão estava inspirado, e ninguém sabia se havia treinado para isso, quando gritou, a menos de cinco metros da moça:
– Estou ficando cego! Estou ficando cego!
A garota se assustou e parou por um instante, sem entender o que estaria acontecendo.
– Tamanha beleza ofusca a minha visão, e esta moça será culpada se eu morrer de paixão.
A garota sorriu, pois não estava esperando por uma abordagem tão ridícula, mas a sua reação foi altamente positiva, conforme afirmam os estudiosos do assunto, entre eles o Gentil, um poeta conhecedor dos sortilégios do amor, que dizia com propriedade que as mulheres normalmente se sentem atraídas por homens engraçados. Mas o problema é que o Romão era muito feio. Porém, havia aquele ditado que dizia que “quem ama o feio, bonito lhe parece”, e ele acreditava fielmente nessa poderosa mentira. Naquele dia a coisa ficou assim: ela seguiu o seu caminho, enquanto ele quase foi carregado nos ombros pelos frequentadores do boteco, como se fosse um campeão do futebol.
Romão não se conteve de ansiedade para chegar o dia seguinte, a fim de ver a Juliana passar em frente ao bar, quando procuraria, mais uma vez, abordar a garota com alguma frase criativa, mas ela não apareceu. E também não deu as caras nos próximos quatro dias. Os companheiros do boteco, os mesmos que o haviam enaltecido no dia anterior, agora diziam que ele teria assustado a menina com a sua feiura, mas ele não se deu por rogado: comprou uma flor na mercearia ao lado e foi até a casa dela, para ver o que havia acontecido com a sua musa.
Quem atendeu a porta foi a mãe, que falou que a filha havia adoecido e estava de cama, quando ele se apresentou como um colega do trabalho. Ela o convidou a entrar, mas a moça ficou confusa ao ver aquele estranho que invadia o seu quarto, mas logo se lembrou do episódio de dias atrás, quando riu da bobagem que ele havia lhe falado.
– Peço perdão por vir, assim, desse jeito, mas fiquei preocupado porque você sempre passa na rua e sumiu nos últimos dias…
– Você está me vigiando?
– Sim, confesso! Não posso deixar de admirar a sua beleza. Eu sou culpado: pode mandar me prender – e ofereceu os pulsos, como para ser algemado.
– Você é muito bobo… – e sorriu.
“Ela está no papo”, ele pensou, o que era verdade. Ela não precisaria inventar elogios, pois era realmente muito bonita, mas os homens, na maioria das vezes, não se arriscavam, com medo da recusa. Não demorou duas semanas e já estavam namorando. Ao contrário dele, a moça possuía uma autoestima não muito elevada, e os elogios e mimos que ele fazia acabaram por conquistá-la, ela que mal saíra de uma depressão profunda, por razões que ninguém poderia entender, enquanto ele a considerava apenas mais um troféu para a sua coleção, e em breve teria que retomar o campeonato.
Com a conquista garantida, ele foi se afastando gradativamente, seguindo os preciosos conselhos do Gentil, o filósofo, que bradava que os homens não podem se apaixonar, pois ficam tolos e vulneráveis, e inventava compromissos para não encontrá-la, mas quando acontecia de vê-la, ficava distante, pensando em outras coisas, e a garota silenciosamente se desesperava, tinha crises de ciúmes veladas, comia bolos e biscoitos recheados como uma louca, e em poucos meses chegou a engordar vinte quilos. Um dia ele sumiu definitivamente sem dar explicações, e ela tomou de uma só vez todos os remédios que havia em casa, entre eles, alguns “tarja preta”, tendo uma parada respiratória, sem que os médicos não conseguissem reanimá-la.
Romão não foi ao seu enterro, pois soube do episódio com atraso, e ficou se remoendo de remorso, sentimento que nunca havia experimentado antes, pois estava sempre focado em seu ego abalado pelo desprezo que teve que engolir ao longo da vida, de ser deixado para trás quando seus amigos iam para a balada, pois diziam que ele poderia atrapalhar, e até nos jogos de futebol da escola era deixado de fora, pois não acreditavam no seu potencial esquelético, e assim foi se armando, inventando os seus truques para sobreviver neste mundo cão, acabando por ficar totalmente insensível, até que um dia, ao atravessar a rua, distraído com o seu sorvete de morango que havia escorrido pelo punho da camisa branca, por onde entrou um fio do caldo formado por gordura hidrogenada, açúcar e corante cancerígeno, em quantidades que poderiam despertar diabetes até em um hipopótamo, quando foi atropelado por um caminhão desgovernado e morreu na hora. Foi esse o desfecho de uma história de amor meio sem graça.
Michel Salomão