Falar de tatuagens é remeter-nos à história, milênios atrás, quando os homens as utilizavam básica e especificamente por três razões — sim, elas não são invenção e privilégio de marinheiros, rockers ou punks :
1) Em religiões pagãs — não cristãs — eram feitas para rituais e cerimônias religiosas. Comumente se pintavam, facilitando a remoção — em diferentes situações se usavam formas e cores específicas àqueles eventos. Eram uma espécie de “fantasia” que, após concluído, eram retiradas. Nesse aspecto, a pintura funcionava melhor, pois antes de ser um símbolo era o porta-voz de uma mensagem. E não era possível gastar-se a vida toda com um único discurso. A exceção está abaixo.
2) Marcar os escravos — como se marca gado — para identificar quem era o seu dono.
3) Marcar condenados ou prisioneiros de guerra — bandidos em geral e traidores.
Portanto, a ideia de se modificar o corpo, como apelo estético , é relativamente recente, e se tornou popular a partir da metade do séc. XX, quando os jovens buscaram quebrar os padrões e se rebelar contra o status quo.
A bem da verdade, conseguiram apenas emporcalhar seus corpos, mesmo acreditando carregar um tipo de “arte”. E a coisa chegou ao extremo de certas pessoas se parecerem mais com uma moldura de ferro-velho, tal o número de tranqueiras a espalhar-se na epiderme. Junte-se a isso os piercings, alargadores e implantes de objetos externos e internos: o Inferno entra em êxtase. Na verdade, muitos dos demônios podem ser vistos aqui e acolá, com seus “chifres” e deformidades espalhadas pelo corpo. Falta carregar o tridente porque, de resto, já não falta mais nada.
Eventualmente, houve grupos que as aplicavam a fim de se distinguir dos rivais ou concorrentes: gangues, piratas, máfias e qualquer coisa relacionada ao submundo do crime — famiglia, grupo, clã, bando, etc.
Reconheço haver pessoas feias, muitas delas feias de doer (ah, alguém vai dizer: isto é preconceito, pois não existe feiura, e ela está apenas nos olhos de quem vê… Mas, claro que está, ora! Ou é possível ver a beleza ou feiura sem olhos?), e talvez um remendo aqui e outro acolá surta um efeito mitigador. É provável que alguns queiram ser um macacão “vivo” de piloto de Formula 1 ou uma colcha de retalhos mal costurada…
Entretanto, quando se vê uma pele branca, delgada e imaculada — e nem estou mais falando de feiura — tisnada de borrões, logo me vem à memória o chão daquela oficina mecânica ou borracharia dos “quintos” — todavia, até essas, de alguma forma, se especializaram em acabar com as marcas e manchas de graxa e óleo espalhadas pelos pisos, paredes, bancadas. Muitas são mais salubres do que a maioria das cozinhas de restaurantes, cantinas e lanchonetes, com seus cozinheiros e garçons empesteados de tinta…
E o que dizer das peles mais escuras, que insistem em usar a cor preta? Tentei uma explicação e não encontrei — até que, olhando-me no espelho, não vi nada além de um papel amarelecido e ressecado. Não fui capaz de encarar a lixeira, depois disso.
E os velhos? Tem muito desses em busca de rejuvenescimento, a famosa síndrome de Peter Pan, mas acabam mesmo se tornando algo ainda mais ridículo do que o cabelo pintado de cobre ou a camiseta preta com a foto da Anita. O prosaísmo de velhos infantilizados e suas tatoos só é superado pelos adeptos do crossfit, terraplanismo e do aquecimento global. Aos jovens que não acreditam no futuro, digo: ele chegará, e com ele pelancas, flacidez, rugas, estrias e varizes, e as tatuagens apenas realçarão a própria decadência.
Alguém pode dizer, com todas as letras, jamais ter lido algo tão estúpido, reacionário, preconceituoso e declaradamente eivado de ódio. Na verdade, sinto em lhe dizer, mas já o fizeram. Contudo, posso afirmar o contrário, não que eu não seja nada disso, porém, o interlocutor a acusar-me se utiliza de adjetivos a descrevê-lo também. Ao menos, tenho lá os meus motivos: sofro de Transtorno Compulsivo-Obsessivo, diagnosticado há mais de trinta anos por uma junta médica do hospital psiquiátrico “Galba Velloso”.
Naquela época, fui mantido ora na solitária, ora na camisa-de-força, até que reavaliou-se a situação, e descobriram que toda a equipe era, no fim das contas, esquizofrênica, e me soltaram. Hoje, não sei aonde andam, enquanto eu me aventuro pelas ruas, óculos escuros — uso dois pares de lentes “Transitions” em cada um —, boné ou chapéu; à cata de grana para comprar o “Google Glass” e poder, enquanto perambulo, ver apenas paisagens bucólicas e impolutas. Chego a pensar num Metaverso sem tatoos e balangandãs — se criarem, contem com a minha adesão.
Como santo de casa não faz milagres, acabei de pagar a trigésima sexta tatoo na minha filha caçula, provocando o furor da mais velha, que foi taxativa:
— Ou me deixa fazer as tatuagens que sempre quis, ou saio de casa!
Por uns dias fiquei em dúvida. Mas depois que a esposa colocou o meu travesseiro no sofá da sala, sem direito a coberta nem nada, marquei três sessões prévias com o “Maurice”, um tipinho que se diz francês mas que arrasta um sotaque mais para castelhano, e se autodenomina o “Rei” — apenas “Rei”, sem qualquer complemento. Se ele não aceitasse cartão de crédito e dividisse em até dez vezes sem juros, eu já teria trocado o vetusto Pálio por um Argo.
Não sei quando vai acontecer, e se vai acontecer, pois pelo andar da carruagem, a minha esposa anda a confessar às amigas o desejo antigo de ter a figura do “Che” no colo acompanhado de um martelo e foice. E o bebê, que nem sabe falar, mas já ostenta marcas estranhas nas covinhas e dobrinhas…
É melhor levar o Pálio para a revisão dos 200.000 km, enquanto é tempo.
Jorge F. Isah