Se fôssemos pensar bem, não deveríamos comer carne. O problema é que o nosso organismo necessita de proteína, é o que dizem, e comercialmente não é tão simples obter esse item de forma alternativa com tamanha facilidade. Ou então é porque não fomos culturalmente preparados para esse tipo de consumo, principalmente soja, grão-de-bico, gergelim, entre outros alimentos proteicos. E também porque não sabemos as quantidades necessárias para o suprimento das doses diárias.
Não há dúvida de que um belo churrasco pode parecer irresistível para a maioria das pessoas, mas o segredo é o tempero, e não necessariamente a carne. Experimente comer carne de boi, porco ou frango crua, ou mesmo assada, mas sem sal, sem alho, sem pimenta, sem ervas finas, sem nada. Seria insuportável.
Observem os veganos: em sua maioria, acabam ficando com a pele verde como as plantas que comem. Os mais radicais não comem nem ovos, nada que seja de origem animal. Os elefantes e hipopótamos só comem verduras e legumes. E algumas frutas, talvez. São enormes, bem nutridos e vivem muitos anos. Mas o organismo deles é preparado para isso. Acredito que um humano que comesse um caminhão de verduras diariamente não conseguiria engordar tanto. Talvez tivesse apenas um pouco de azia por conta dos pneus e das ferragens.
Tem gente que sustenta que os bichos não têm sentimentos, e por isso se alimentam de suas carnes: pura mentira. Todos os animais, eu disse TODOS, podem ser domesticados, se afeiçoando aos humanos. Até tigres e leões. Ou mesmo os peixes. Existem muitos vídeos por aí retratando o carinho que demonstram por algumas pessoas. Não por todas, é claro, pois existem seres humanos sem qualquer sentimento com relação a seus semelhantes, quanto mais aos animais.
Particularmente, não gosto de gatos, pois acho que são traiçoeiros. São muito independentes, bem diferentes de mim, que dependo de minha aposentadoria, que fiquei calado por décadas, para não falar mal da empresa onde trabalhava. Gatos não tem aposentadoria. Quando querem, vão lá na gaiola e devoram a sua calopsita de estimação. Lei da selva. Ainda assim, não comeria gatos.
Já tentei ser vegetariano, vegano ou algo do tipo, pois há uma diferença nessas denominações, e não me interesso muito em saber. Para resumir, fiquei uns tempos comendo só folhas e grãos. Foi até legal, pois encontrei um restaurante que fazia uma comida bem temperada e a gente nem percebia que não tinha carne. Havia algumas receitas que imitavam proteína animal e eram bem gostosas: bife de soja com beterraba, bolinhos de grão-de-bico com batatas, falafel, feijoada vegana, quibe vegano, entre outras. Mas depois de um tempo esse restaurante fechou e não encontrei outro no mesmo nível, acabando por voltar para as carnes. Só não posso pensar nos bichos que morreram de uma forma cruel para se transformarem em alimentos.
Quando criança, eu tinha três galinhas e um galo de estimação. Foram criadas em casa, em um pequeno quintal cimentado, e obedeciam a chamados, pediam carinho, dormiam no colo da gente, comiam na mão. Nunca tivemos coragem de comê-las. Só ficava com raiva quando o galo resolvia “bater” nelas, mas só mais tarde fui entender o que estava rolando, e não era briga. Elas nos supriram com um belo estoque de ovos (menos o galo, é claro), e morreram de velhas.
Mais tarde, tivemos quatro cachorros e também não os comemos. Pelo menos é o que penso: certa vez almocei em um restaurante cantonês em Nova York e experimentei um prato, que parecia sopa, mas não era, e tinha uma carne bem exótica. Só mais tarde li que em Cantão, região da China, eles adoram comer carne de cachorros. Por isso, nunca mais voltei lá.
Michel Salomão