Händel foi uma descoberta tardia. Na verdade, não tão tardia, pois desde criança sempre ouvi amostras da sua música: em filmes, séries, documentários, publicidade… Assim como a maioria, não sabia de quem eram aqueles trechos de cantatas, oratórios e óperas. Reputava como uma peça promocional, para a venda de um ou outro artigo, seja um encontro, um beijo, uma batalha ou simplesmente um novo desodorante ou sabonete. Com o passar dos anos, a curiosidade e muito trabalho — numa época em que as facilidades digitais não existiam — acabei por descobrir a origem das composições. Mas me gastava, como jovem, ao som mais imediato e previsível do pop-rock, em detrimento ao contraponto, modulações e harmonia.
Que fique claro: não sou um expert, mas é possível a qualquer um que não esteja contaminado pela toxidade moderna — aquela do prazer imediato, quase uma coceira (com isso não estou a dizer que toda a modernidade é nociva) — deliciar, enlevar-se na arquitetura de sólida estrutura musical, pedra sobre pedra, como um castelo, ao invés dos casebres de paus e amianto que insistem em nominar “arte”.
Nos últimos vinte anos, por causa de Vivaldi e suas “Quatro Estações”, acabei-me seduzido pela música barroca. Conheci Bach — que já ouvia esparsamente — Scarlati, Corelli, Purcell e Händel. Definitivamente, o primeiro e o último, se não o último e o primeiro, me conquistaram. Foi quase um arrebatamento. Depois de “Jesus, alegria dos homens”, “Variações de Goldberg”e “Paixão segundo São Mateus”, vi-me fascinado pelo “Messias”, “Judas Maccabeus”, “Israel no Egito” e “Water Music”. É impossível, a cada nova audição, não me surpreender com as complexas linhas melódicas, a harmonia perfeita — que muitos acham rígida — e descobertas não menos admiráveis.
Mas quem foi Händel?
Nascido em Halle, Alemanha, em 1685, naturalizou-se inglês em 1726.
Desde pequeno, os dons musicais afloravam-lhe, o que o levou a ser um virtuose do cravo e órgão com apenas onze anos. O pai, cirurgião-barbeiro, não concordava com a carreira escolhida pelo filho, e acabou por convencê-lo a ingressar no curso de Direito, na Universidade Halle.
Em 1702, mudou-se para Hamburgo, então, o centro das artes germânicas. Em 1705, compôs a primeira ópera, “Almira”, que se transformou em sucesso imediato, causando furor e entusiasmo públicos. Ali, ganhou fama como exímio violinista e posteriormente assumiu o posto de maestro. Sentindo-se estagnado na cidade, decidiu mudar-se para a Itália aos vinte anos, onde alcançou fama e sucesso como regente e compositor, especializou-se em música sacra, de câmara, oratórios e óperas.
Em 1713, aos vinte e sete anos, mudou-se definitivamente para Londres, cidade ondecortejo dividia a residência juntamente com Hannover — quando se tornou diretor musical da capela do príncipe-eleitor; mas a maior parte do tempo residia na capital inglesa. Foi em terras bretãs que o gênio de Händel manifestou-se em esplendor, e onde compôs as suas obras mais importantes.
Inicialmente exposto ao barroco alemão, posteriormente incorporou elementos de vários estilos, construindo um repertório pessoalíssimo e variado, tornando-se um expoente máximo — ao lado de Bach — o que lhe valeu o posto de diretor da Real Academia de Música de Londres, em 1720.
No fim da vida, praticamente cego, Georg Friedrich Händel faleceu em 1759. O corpo foi sepultado na Abadia de Westminster, cujo cortejo e sepultamento foram acompanhados por milhares de pessoas.
Händel foi um dos gênios a aperfeiçoar a polifonia vocal, a partir da sua experiência com a polifonia instrumental do órgão. Tal qual Bach, eles trouxeram ordem ao caos experimental do século XVI. Sua música é marcada pela riqueza melódica, pela dramaticidade suntuosa e clareza harmônica; pelos contrapontos e polifonias à beira da perfeição. Não sem razão foi apelidado de “divino”, tal a grandiosidade da sua música e execução, onde se permitia improvisos rigorosos e corretíssimos.
A sua fé — como Bach era luterano — foi fundamental para a concepção artística, motivando-o a construir uma obra original, inovadora e que influenciou inúmeros compositores, como Beethoven — que certa vez disse: “Ele é o maior compositor que já existiu” —, Mozart, Haydn, Brahms, Mendelssohn, e a lista só aumenta.
Hoje, sempre que posso, deleito-me na transcendência imanente da música de Händel. Creio ser o mais próximo — assim como Bach — do que o homem pode produzir, em termos musicais, da orquestra celestial. Penso que os Serafins aprovariam. Assim como o próprio Deus.
Jorge F. Isah