MARESIA

Morar na praia tem muitas coisas boas e não preciso listá-las; é de conhecimento geral. Mas como em todo lugar, tem também os seus inconvenientes. Um deles, a maresia. O inimigo invisível. Depois de algum tempo, se encarrega de deixar as marcas de destruição em quase tudo. Tem preferência pelos metais, couros e tecidos naturais; castiga paredes, teto e deixa um bolor nojento na madeira. Claro, sempre em parceria com a umidade; são os herdeiros de Butch Cassidy and the Sundance Kid, ou melhor, Bonnie & Clyde.

Sempre imaginei que apenas os objetos fossem as suas vítimas prediletas, mas, com o tempo, percebi sinais de sabotagens no meu organismo. Acordar com a cabeça pesada, nariz entupido e garganta feito lixa tornou-se rotina. Aquilo era estranho. Em sessenta anos, nunca havia sentido nada parecido. Seria o prenúncio de doença ou, na melhor das hipóteses, o simples desgaste da idade? Resolvi consultar um especialista.

— Doutor, estou me sentindo assim e assado.

— Tem muito tempo?

— Não… De uns meses para cá.

 — Vou pedir uns exames…

Fez risquinhos nos quadradinhos do pedido, me entregou, e disse:

 — Quando estiver pronto, marca o retorno.

Depois de pegar o resultado, procurei o doutor, mas ele havia se mudado da cidade e vendido a clínica para outro. Mesmo assim, pensei em marcar com o novato. Me irritei ao saber que teria de pagar novamente; não valia o retorno sem custos.

 — Mas isso não é justo! Paguei por tudo.

 — Infelizmente, não posso fazer nada. Não é praxe o médico abrir exceções e avaliar os exames de outro médico. É antiético.

— Antiético… roubo, isso sim — sussurrei. 

 — O que o senhor disse?

 — Nada… Onde está o doutor Fulano?

 — Infelizmente, não sei ao certo. Mudou de estado… dizem que foi para a Bahia.

 — Então, não tem jeito?

 — Infelizmente, não.

Infelizmente, não… infelizmente, não… devia ser o novo mantra.

— Mas se o senhor quiser, posso ver se o doutor Beltrano abre uma exceção mesmo não tendo pedido os exames, e cobre um valor simbólico… só para atendê-lo.

 — Fazer o quê! Veja com ele, então.

No dia da consulta, a recepcionista olhou-me como se dissesse: “ah, é você o encrenqueiro!”.

 — Pode entrar. O doutor está esperando.

Na sala, o novo médico parecia vegano em churrasco.

— Pois não, qual o problema?

— O doutor Fulano me pediu uns exames.

— Sim, mas qual o problema do senhor?

— Não sei! Por isso estou aqui, ora!

Olhou-me impaciente.

— Quis dizer, quais são os sintomas.

— Ah, sim…

Fiz o relato, e para lançar um pouco mais de drama, já que estava pagando o dobro para receber a metade, acrescentei uma coisa e outra: olhos lacrimejantes e zunido nos ouvidos.

— Isso?!… — debochou — É maresia. Não preciso nem olhar os exames.

Fiquei atônito.

— Está zombando? Onde já se viu maresia em gente?

— Quanto tempo mora aqui?

— Uns seis meses.

— E desde quando está sentindo essas coisas?

— Talvez um pouco menos.

Pegou os papéis. Leu, virou, revirou-os.

— Os exames estão normais. O senhor tem saúde de aço… quero dizer, de ferro, já que nem ele resiste muito bem por aqui… — e sorriu.

Saí de lá e fui questionar os vizinhos. Seu João, veterano no lugar havia décadas, confirmou o diagnóstico, assim como todos os demais. Por fim, me disse:

— Se tivesse me perguntado antes, teria economizado uma nota e a dor de cabeça… bem, essa não… — zombou.

Pois é! Vivendo e aprendendo… e, claro, fungando.  

Jorge F. Isah

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