“Restos do Carnaval”. Esse é o título do meu conto predileto. Ele pertence a uma coletânea de contos da autora dos textos mais emblemáticos, psicologicamente falando, que já conheci: Clarice Lispector. Nele, a narradora e também protagonista volta ao Carnaval de sua infância, algo que também aconteceu comigo no primeiro encontro que tive com o texto.
Ah, meu primeiro e único Carnaval…muita purpurina no ar, risadas e confetes, aula livre na escola. Vesti minha melhor roupa, escolhida com muito capricho e cuidado, dois dias antes da tão aguardada festa.
Embalada pelas histórias que ouvia de meu pai, que passara sua juventude em celebrações carnavalescas fluminenses, imaginava-me sorrindo, brilhante e florescendo no festejo que tomei como meu: o Carnaval. Festa da carne para muitos, mas, para mim, um feriado criado em minha homenagem (devaneios de minha infância introvertida) até porque sou nascida em fevereiro, mês escolhido para tal comemoração. Como me animava ver a preparação para a festa, mesmo nunca ter podido participar de nenhuma, até aquele dia, na escola, no auge de meus doze anos.
Criada na sã doutrina, nunca despertou em mim o apetite por coisas “do mundo”; porém, pular carnaval era um anseio que eu nutria em silêncio. Meu desejo foi realizado. Pulei uma manhã inteirinha ao som de marchinhas infantis.
No conto de Lispector a personagem se recorda de que a única coisa que desejava ao pular carnaval era esquecer-se de sua meninice. Ao me conectar com o texto, desejei o contrário: encontrar-me com aquela menina que celebrou com muito gosto um carnaval em meados dos anos 2000. A protagonista da narrativa almejava fugir. Da realidade, das dificuldades, de si mesma. Eu não. Eu buscava um lugar que finalmente seria meu de fato. Um lugar em que eu seria eu, inteira, sem pedaços ou recortes que agradassem. Que minha alegria seria exposta, extravasada, colocada do avesso. Iria, enfim, comemorar a minha festa interior de forma exterior. A fantasia se tornara real. Foi isso que foi para mim aquela ingênua festa. Naquela manhãzinha de sexta-feira tornei-me quem sempre quis ser: a rainha do meu próprio Carnaval.
Caso estejam se perguntando se ainda comemoro ou penso o mesmo sobre essa festança, respondo-lhes: é claro que não! Deixei minhas meninices, não aguento multidões e não mais me convém esse tipo de festa.
Jéssica Fernandes