Quase ninguém da grande mídia noticiou o esquema bizarro envolvendo uma ONG de direito dos animais. Por mais estranho que pareça, quase imediatamente após a prisão da principal acusada de arquitetar e executar a trama, uma decisão judicial, mais rápida do que “The Flash” e mais vazia do que post no TikTok, impediu qualquer alusão à ONG, sua diretiva e incriminados, sob pena de prisão e multas progressivas, restando a justificativa: preservar a democracia e impedir atos antidemocráticos.
Houve um silêncio em noticiários, noticiosos e ordinários, somente quebrado pelo Portal que, imediatamente, após veicular a manchete, teve as contas bloqueadas e ganhou uma multinha de um bilhão, quatrocentos e quatro milhões, quarenta mil, quatrocentos e quatro e quarenta — U$ 1.404.040.404,40 —, sem tirar nem pôr. O boca-a-boca apelidou-a de “fecha-te-sésamo” .
O Portal em um último estertor, publicou no dia seguinte materiais sobre o fim da liberdade, o fim da democracia, o fim da justiça, o fim do bem… e chegou ao fim. Sem direito à loiraça e a máquina de cafezinho na recepção.
Sem o tal Portal, ninguém — hoje, amanhã ou depois — saberia do ocorrido.
Pelo visto, restam-nos páginas e telas abarrotadas de receitas culinárias, moda outono-inverno, fofocas, e epopeias dos reality-shows e novelas.
Estou aqui como um jornalista independente, mesmo trabalhando como escravo para a Bulunga, o que não me torna independente nem escravo, talvez as duas coisas ou nenhuma… importa manter o emprego e uma liberdade controlável.
Ao meu editor, não tenho nada a dizer, a não ser pedir um churrasco. Isso não o isenta de culpa, mas a vingança será estourar as presilhas da cinta abdominal.
E manter o meu zelo democrático, o que não deixa de ser uma forma de opinião.
A verdade, nua e crua, é que não posso citar o ocorrido, dar nome aos bois e vacas, e cumprir a minha vocação profissional. Mas qualquer omissão é melhor do que ir parar em um gulag tropical.
Nada mais justo, portanto, do que terminar este texto falando do que não sai da boca do povo: o casamento da Mulher Abóbora com Zangão, um dos anões do circo Catatau, autodenominado “o menor espetáculo da terra”. Não tão pequeno a ponto de o país inteiro poder assistir a essas e muitas outras gabolices.
Ao mesmo tempo em que me preparo para dormir às três da tarde.
À espera de o noivo se decidir finalmente: estará ou não, no altar, em um banquinho?
Jorge F. Isah