Eu sei que vou MORRER NESTA NOITE

Meu avô paterno se chamava Carlos e, em sua homenagem, meus pais me batizaram João Carlos. Agora ele estava com 92 anos, razoavelmente lúcido — pois se esquecia de uma coisa ou outra, o que é natural e acontece até comigo, que tenho 29 anos. Eu tinha uma memória fabulosa na adolescência, mas, com o tempo, a vida vai nos dando uns knock downs, e a gente resolve esquecer algumas coisas de forma proposital.

Certa noite, eu estava conversando com ele em seu quarto, que ficava em uma edícula nos fundos da nossa casa. Não era um lugar feio, onde as pessoas normalmente depositam velhos: era uma suíte, tinha ar-condicionado, móveis planejados de ótima qualidade, TV de 65 polegadas, notebook de última geração, frigobar, quadros de Monet e Klimt — dois estilos tão antagônicos — afixados nas paredes forradas com papéis importados da Alemanha, entre outros itens de conforto. No meu quarto fazia o maior calorão e, por isso, eu ia até lá para ficar conversando com ele. Mentira: eu fazia isso porque realmente gostava de ouvir suas histórias.

Ele era professor de Filosofia em uma universidade federal. Foi demitido e chegou a ser preso por causa da ditadura que tomou conta do país a partir de 1964; mas, depois que veio a anistia, foi reconduzido ao cargo, ganhando uma bolada relativa aos salários atrasados e corrigidos. Foi com esse dinheiro que comprou a casa em que morávamos, mas só quis ficar com a sua suíte nos fundos.

Naquela noite, afirmou que iria morrer assim que o relógio marcasse 23h59. Duvidei, é claro, pois não acreditava em fenômenos paranormais, apesar de ter um certo medo de fantasmas e não arriscar passar perto do cemitério que tinha no bairro à noite.

Ele falou com tamanha convicção que comecei a acreditar que era verdade, ainda mais quando ele me deu o seu relógio de estimação, banhado a ouro, cujo mostrador estava um pouco oxidado, mas funcionava perfeitamente. Tinha uma tampa com uns desenhos bonitos e uma corrente grossa, que ele usava para enrolar no cinto e guardar no bolso da calça.

Ele não era apegado a dinheiro ou objetos, mas aquele relógio lhe trazia muitas recordações, pois fora passado de seu avô para seu pai — ou seja, meu trisavô, do qual eu havia visto algumas fotos e achava engraçado, pois tinha olhos muito claros (um deles era totalmente torto, virado para dentro) e os cabelos louros espetados, além das roupas muito largas e sustentadas por suspensórios.

Era uma outra época, quando as pessoas eram menos estúpidas e não havia essa polarização que hoje divide famílias e nações. Naqueles tempos, se estourasse uma guerra, todos se uniriam para investir contra os inimigos, despertados por um sentimento patriótico que não existe mais.

Meu avô não falava sobre isso, mas era fácil perceber que não era feliz com os rumos que o mundo tomou. Nos tempos em que era mais jovem, as pessoas tinham palavra, tinham honra; não era preciso assinar papéis e não havia esse negócio de juiz interferindo em todos os assuntos. Não tinha tanta corrupção e ninguém queria ser político, pois não se ganhava nada com isso. A vida era muito melhor.

Com a morte prematura da minha avó ele ficou triste. Brigavam por qualquer coisa — ela implicava com as manias dele e ele com as dela — mas eram inseparáveis. Quando ele queria fazer uma graça, comprava um pudim de leite, que ela adorava, e logo faziam as pazes.

Seus amigos também foram morrendo, e agora só sobrara ele. Também ficou muito abalado com a morte do apresentador de TV Sílvio Santos, talvez porque fossem quase da mesma idade e ele o viu ascender em seu império, sendo que um dia chegou a conhecê-lo pessoalmente em uma de suas idas a São Paulo. Disse que ele estava em uma dessas cafeterias chiques, rodeado por alguns homens bem-vestidos, e que foi muito atencioso quando o meu avô se aproximou e lhe disse que gostava de seu trabalho. Durante anos, comentou sobre o episódio com orgulho.

Concluiu que chegara ao final de sua missão. Teve filhos, escreveu alguns livros que ninguém leu, plantou árvores no fundo de sua casa. Ao final da noite, daria um goodbye a esta vida bem vivida.

Mas ele não morreu. Pelo menos, naquela noite, não. Mesmo assim, deixou o seu relógio comigo.

Michel Salomão

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