A distância era tudo o que nos mantinha inteiros. Paradoxalmente, era o que nos sustentava. O propósito parecia o mesmo, mas havia súplicas silenciosas nos olhares — como se pedíssemos socorro um ao outro. Existir separados era impensável; permanecer próximos, insuportável. Bastou a convivência para nos desmontar.
Nossos egos expostos como peças frágeis numa prateleira prestes a cair, os medos escancarados no rosto, impossíveis de esconder. A fuga parecia a única saída — não por covardia, mas por exaustão. Nossos desejos já não caminhavam lado a lado; chocavam-se, feriam-se.
Hoje compreendo: não foi o fim, foi uma ruptura inevitável — a travessia dolorosa entre quem éramos, quem sonhávamos ser e o que, de fato, nos tornamos. Entregamo-nos um ao outro como quem oferece respostas desesperadas para perguntas que nunca soube formular. E ainda assim, falhamos. Não seguimos juntos como prometíamos em silêncio.
Restaram as fotografias rasgadas — testemunhas mudas de um tempo suspenso. Guardo-as como quem guarda um pedaço do próprio peito. Não as descarto porque ali ainda pulsa uma versão de nós que eu queria ter salvado. Mas nem eu sobrevivi intacto àquilo. Já não sou o mesmo — e talvez nunca tenha sido.
A liberdade que buscávamos não mora em nenhuma lembrança, nem nas palavras que ensaiamos diante do espelho. Ela nunca esteve ali. E ainda te vejo quando encaro meu próprio reflexo. Vejo teus traços misturados aos meus, tua ausência ocupando espaço. Talvez seja por isso que nunca mais conseguimos ser inteiros — porque, de algum modo, ainda habitamos um no outro.
Glayson Carneiro Marcelino